Miséria na América Latina
Miséria na América Latina
Chega a 100 milhões o total de miseráveis na América Latina e o Caribe, o que representa 35% da população da região, conforme recente estudo da Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe). O documento mostra ainda que nenhum dos 13 países que fazem parte do estudo (Belize, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, El Salvador, Guatemala, Jamaica, Nicarágua, Peru e República Dominicana) conseguiu até agora o acesso total de sua população aos serviços sociais básicos (educação, saúde e água potável). Reconhecendo que a maioria desses países aumentou o dispêndio público social durante a década de 90, o estudo assinala, contudo, que o esforço foi claramente insuficiente. Para a Cepal, falta avançar muito, tanto em termos de cobertura como em qualidade e equidade nos serviços sociais básicos, o que torna imprescindível aumentar o gasto nesses serviços, além de melhorar a eficácia dos programas sociais.
O estudo, intitulado O Gasto Público em Serviços Sociais Básicos na América Latina, informa que as aplicações na região, entre 1994 e 1996, atingiram uma média de US$ 225,00 per capita, dos quais US$ 73 se referem a serviços sociais básicos (US$ 46,00 destinados à educação, US$ 24,00 à saúde e US$ 3,00 para programas de água potável). Ainda segundo o documento, o gasto em serviços sociais básicos representou 12,4% do dispêndio público, ou pouco mais de um terço do total. A Cepal afirma que os recursos adicionais para alcançar a meta de cobertura plena dos serviços sociais básicos é de mais 8 pontos percentuais do gasto total.
Segundo ainda os dados fornecidos pela Cepal, o Brasil perde para Belize em termos de gastos per capita no acesso aos serviços sociais. Enquanto Belize gasta US$ 189,00 (US$ 101,00 em educação, US$ 84,00 em saúde básica e US$ 4,00 em água potável) o Brasil despende US$ 132,00 por ano per capita (US$ 89,00 em educação, US$ 34,00 em saúde e US$ 8,00 em água potável). Apesar dessa diferença, o Brasil está melhor colocado do que o restante dos países pesquisados. A República Dominicana é a que gasta menos (apenas US$ 19,00 per capita nesses serviços). De acordo com a Cepal, os países desenvolvidos deveriam realizar esforços adicionais para ajudar as nações em desenvolvimento a alcançar o acesso da população aos serviços sociais básicos e, com isso, reduzir a pobreza.
É inegável que a ajuda externa seria extremamente valiosa. Entretanto, não se pode esquecer que sem uma atitude interna voltada para o necessário resgate da dignidade humana dos povos, todo o auxílio que venha de fora pode se tornar inútil. O que é fundamental é a percepção da dívida social dos governos com seus respectivos povos, uma situação política que é comum na América Latina, onde a população sempre foi mantida sob níveis de vida intoleráveis. E o grande desafio de agora é precisamente o resgate desta imensa massa humana que vive à margem de qualquer benefício social, sobrevivendo sem respeito, dignidade ou esperança. A falta de recursos para dar a estes 100 milhões de miseráveis da América Latina uma condição de vida menos traumática constitui uma desculpa inaceitável hoje em dia. O que se precisa é estabelecer prioridades visando mudar esta situação, e não apenas um espírito de caridade. O resgate da dignidade humana destes 100 milhões de miseráveis é fundamental até para que ocorra uma real melhoria de vida de toda a população da América Latina. O fosso que há entre os muito ricos e os extremamente pobres precisa ser coberto, não apenas para atender a reclamos de humanidade, mas como uma garantia de segurança geral em cada país e no continente como um todo.





