Nos últimos dias, o presidente dos EUA, George W. Bush, colocou a ajuda à África como uma das prioridades em sua agenda de discussões durante a cúpula do G-8 no Japão. E os problemas no continente são muitos: governos ditatoriais, corrupção, doenças como a Aids, péssima qualidade da água, desigualdade, seca e fome.

Diante dessa lista interminável, a reportagem conversou com a londrinense Fabiana Mantovani Fogagnoli, que se especializou em assuntos ligados ao continente africano no curso de Ciências Políticas e Justiça Social na Western Ontário (Canadá)®MDNM¯, e aponta soluções para os problemas do ''continente esquecido''.

Os Estados Unidos apresentaram ao Conselho de Segurança da ONU sanções em relação ao Zimbábue. Os governos ditatoriais seguem sendo um problema na África?
Sem dúvidas, e não vêm de hoje. Os problemas vêm desde os tempos do imperialismo, fazendo com que pessoas de diferentes tribos e etnias estejam em um mesmo território. Temos problemas em Uganda, no Congo, Zaire, entre outros países. As sanções acabam se estendendo a esses países e a solução não vem tão cedo.

É possível implantar a democracia nestes países?
Não adianta chegar, como muitas potências querem e fazem, e simplesmente mudar o sistema. Isso leva tempo, até para as sociedades desses países se acostumarem à nova realidade.

O problema da fome de 2003 está novamente se agravando na Etiópia, que deriva, entre outros fatores, da seca...
Os problemas em relação à fome na África não vão deixar de existir. Há várias organizações que se prontificam a levar alimentos à população, como a Unicef, a ONU, mas a principal carência, de fato, é de um projeto para desenvolver plantações. No Nordeste brasileiro, com problemas climáticos idênticos, os sistemas de irrigação resultaram em plantações de manga e demais frutas tropicais hoje exportadas. Tempos atrás, jamais se imaginaria isso. Creio que a carência seja de bons projetos.

Mas temos também a inflação e o encarecimento dos produtos...
A crise é mundial. O preço dos alimentos sobe, a Europa está com problemas por conta dos subsídios e a África vai sofrer por estar em uma situação mais delicada. Pagará o preço por ter os países mais pobres e ser o continente mais vulnerável.

É preciso enxergar o continente com outros olhos?
Urgentemente. A África precisa ser vista não apenas como o continente que ''não tem jeito'', que só tem pessoas miseráveis. Além da carência de projetos, também é preciso combater a corrupção de maneira mais séria e eficaz. Há empresas que se beneficiam pela simples existência de conflitos e a África é um território célebre por ser rica em petróleo e minérios. É mais fácil tirar petróleo de um país como a Nigéria, por muitos anos assolado por uma guerra civil, do que onde há regras e leis. Não é segredo para ninguém: países sem lei terão suas riquezas exploradas enquanto convier às grandes empresas.

Se a água está na origem dos problemas de menos de 1% dos países desenvolvidos, essa proporção chega a 24% em países em desenvolvimento, como Angola. Por quê?
Em muitos países da África o esgoto a céu aberto é cena comum. Em Serra Leão, há esforços para pôr fim ao esgoto a céu aberto. É preciso ter uma estrutura por trás, só o governo é complicado. Muitos governos já são corrompidos e não conseguem solucionar a maioria dos problemas...

Recentemente, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, pediu para a comunidade internacional manter a proporção de ajuda econômica à África, com o objetivo de combater a epidemia de Aids que afeta o continente. Como vê a situação?
A situação requer atenção, mas não é isolada. Muito se fala sobre a África, mas se esquece que a Ásia é repleta de problemas, bem como o Leste europeu. São países que convivem com um regime extremamente autoritário, em permanente estado de pressão e sob ameaça. A miséria, a Aids e o subdesenvolvimento não são exclusividade africana.

O FMI apontou Moçambique como ''um dos poucos países bem colocados para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio''. Afinal, é preciso se encaixar ou não nas metas estabelecidas para obter empréstimos?
Tenho um professor de Justiça Social que, ao ouvir falar em FMI (Fundo Monetário Internacional) e Banco Mundial, quase morre (risos). Ele já trabalhou em países como Colômbia, Nicarágua, Malásia e Indonésia, e acompanhou a implantação do FMI. Trata-se de um conjunto de regras que deixa até o governo engessado. O FMI e o Banco Mundial cobram determinadas metas e ações que, se não postas em prática, não resultam em empréstimo. Além de Moçambique, outros países em situação melhor são prejudicados por uma ação voltada exclusivamente à consolidação do capitalismo. É a velha história: eu entro no seu país, levo o que ele tem de melhor e depois o abandono. Como nos tempos do imperialismo.

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