As tardes de quarta-feira são animadas nos fundos da igreja Casa de Oração para Todos os Povos, na Vila Isabel (Zona Norte), em Londrina. Um grupo de 10 pessoas prepara o ''Sopão da Alegria'' numa cozinha improvisada. Sopa mesmo, só no nome. Geralmente é uma refeição completa, com enormes bacias de salada, macarronada, bolo, frutas, pão. ''Tudo que arrecadamos nós levamos para a praça'', conta Rosimary de Oliveira. A praça é a Rocha Pombo, no Centro da cidade, onde o alimento é distribuído para meninos de rua, mendigos e viciados. A igreja ''herdou'' o trabalho do palhaço Chocolate: ''Uma das irmãs da congregação conhecia o Chocolate e quando soube que ele ia parar de distribuir a sopa porque estava com problemas particulares, ela veio falar com a gente e nós resolvemos assumir no lugar dele'', conta Rosimary.
Os alimentos doados são preparados em três panelões, quase 100 quilos de comida por dia. A miséria dos moradores de rua comove os voluntários. ''Semana passada um irmão tirou o tênis do pé e vestiu num velhinho que estava descalço e com os pés machucados'', conta Marcia Almirão, 34 anos, outra voluntária. O objetivo da igreja não é dar apenas alimento material. ''Nós queremos reintegrar essas pessoas à sociedade, levá-los de volta para casa'', diz Marcia. Com ''jeitinho'', o grupo vai ganhando a confiança dos frequentadores da praça. Dias atrás conseguiram reunir uma família que estava separada. A mulher morava na rua e concordou em voltar para casa depois de reencontrar as filhas e a irmã.
Rosimary conta que no início não estava muito entusiasmada com a idéia: ''Quando fui pela primeira vez, não imaginava que aquelas pessoas precisavam tanto da gente. Depois, me envolvi com eles. Eu tive uma infância pobre e sei como é duro chegar na hora de comer e não ter comida. É muito triste isso'', assegura. Outra voluntária, Marcia, também sabe o que é passar fome. ''Sou filha de pais alcoólatras e fui dormir muitas vezes sem comer. Se Jesus mudou minha vida, pode mudar a deles também e eu quero ajudar'', comenta.
Apesar de estarem na praça há apenas um mês, o grupo já percebeu uma outra carência dos frequentadores do local. ''Eles querem sair dessa situação. Muitos estão tentando se livrar das drogas mas não têm apoio nenhum. Eles precisam de um local onde possam ficar internados e onde tenham ajuda médica'', diz Marcia. Londrina não tem clínicas gratuitas para internamento de dependentes químicos. ''Será que ninguém pode emprestar um imóvel? Será que ninguém dá valor nenhum para essas pessoas, nem o município, nem o governo?'', questiona Rosemary.
Além da comida, o grupo também tem levado roupas e sapatos para a praça. O trabalho sobrevive de doações e qualquer ajuda é benvinda. ''Quem puder nos auxiliar com combustível nos faria um grande favor'', pede Marcia. São necessários nove veículos para transportar toda a comida e os membros do grupo até a praça. A igreja está arcando com a despesa. Quem quiser conhecer o trabalho deles pode ir até a Praça Rocha Pombo nas noites de quarta-feira. Chova ou faça sol, o ''Sopão da Alegria'' está lá. P.F.

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