Luiz Geraldo MazzaMiséria com glamour
A miséria fica melhor em preto e branco. Indesligável desse conceito toda a filmografia do cinema italiano do pós-guerra, o chamado neo-realismo, único prefixo neo que dá para suportar depois da praga fascista neoliberal. Não dá para imaginar filmes como ‘‘Milagre em Milão’’, ‘‘Roma, Cidade Aberta’’, ‘‘Ladrões de Bicileta’’ e ‘‘Umberto D’’ com os fatores diferenciais da cor.
O tom apropriado é ‘‘noir’’, específico para o clima de um país que saía machucado pela guerra e o fascismo e buscava expressar-se nos limites de uma economia dura que levava Zavatini e De Sica a dispensar atores profissionais, colocando em cena as pessoas da rua, com admiráveis resultados, para baixar custos.
Uma vez um diretor de turismo do Rio, Mario Saladini, se não me falha a memória, observando as favelas dos morros e achando-as, por sua caótica simetria, material plástico de primeira, imaginou pintar esses barracos e obter efeitos artísticos de primeira ordem em função do panorama em contraponto com o casario encarapitado nas encostas. Conforme o momento e o padrão estético dominante, as adptações poderiam ser feitas para a optical arte, a chamada op-arte, exercicíos ‘‘pop’’ e psicodélicos, mutante, enfim como é a vida e o ensina a musa Rita Lee.
Pois dá para lembrar dessa ‘‘glamourização’’ da pobreza, como forma de torná-la palatável e inserida num contexto visual, nessa última genialidade do nosso governador, inesgotável na ânsia de semear ‘‘kitsch’’ pela cidade, como se monumentos fossem capazes de, por sua força alegórica, mudar a realidade de uma sociedade aberta ao crime como em momento algum de sua existência. O totem - como o demonstrou a imprensa - não funcionou no primeiro dia e para acioná-lo o sujeito tem que ser meio baixinho, pintor de rodapé ou jóquei de coelho. E com a fúria da bandidagem, abaixar-se é como ficar sentado de frente no saloon onde, a qualquer momento, pode chegar o pistoleiro.
Pergunta-se: para que essa bobeira de denominá-lo ‘‘totem’’? Se Requião fosse o governador, por seu apego aos arcaísmos, seria o ‘‘pelourinho’’ como chamou de ‘‘aldeamento’’ ao entorno dos terminais de ônibus e de ‘‘ouvidor’’ aquele que deveria exercer o papel de ombudsman. Se o símbolo da autoridade, e mais especificamente da segurança, é apenas um aparato, aliás de péssimo gosto, pelo jeito voltamos ao viver primitivo da família sindiásmica ou punaluana. O totem pode até ser respeitado pelo público, de reservas inesgotáveis de credulidade por força da manipulação constante do ‘‘marketing’’, mas nunca por aqueles que vivem sob outros valores e muito mais organizados que são os delinquentes. Dentro em pouco o ‘‘vudu’’ será a panacéia e iremos penetrar bonecos simbolizando criminosos com agulhas, ou então teremos um manancial de votos contra um governo que insiste em saídas virtuais para dramas concretos.AXIOMA
O bebum, metido a poeta, viu o totem e tascou: ‘‘Eles que esqueçam o tote e parem de botar a mão no pote’’. A rima é ruim, mas é uma solução.
SILOGISMO Se há 14 coronéis na Polícia Militar, três apenas com experiência de comando e atuação operacional, é porque estamos entregues a uma estrutura burocratizada e isso dá mais meio-de-campo do que ataque e defesa.
BIZARRICECada estudioso de lógica faz as suas deduções de conveniência: se o Onaireves Moura, com tudo o que aprontou, voltou para a Federação Paranaense de Futebol, por que o presidente FHC não pode continuar no Alvorada?
FILOSOFIA‘‘Os homens se divertem muito mais que as mulheres. Talvez porque se casem mais tarde e morram mais cedo’’. Mencken.
SPRAYO Paraná parece ter sido um dos poucos estados que lembraram e marcaram a passagem dos 50 anos da Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão. O governador empossa hoje o Grupo de Defesa dos Direitos Humanos no Palácio e assina dois convênios, um em favor de presidiários e outro de atendimento básico da cidadania.- Incompatível com a visão desses direitos a superlotação de presídios e também de instituições de adolescentes.- Um vexame a ausência de previsão mínima das ocorrências de anteontem com a invasão das agências do Banestado por sem-terra: em que lugar estão os órgãos de inteligência das polícias civil e militar?- Um dado importante a ser lembrado: a Casa Militar sempre, pelo menos no governo federal, foi a encarregada desse trabalho. Pedro Geraldo com Jânio Quadros e Assis Brasil com Goulart. Ambos quebraram a cara.- Assustadora a quase epidemia de problemas respiratórios, pneumonia e pleurisia na maioria dos casos, em Curitiba, o que se dá paralelamente ao surto de gripe. Hospitais lotados, pneumologistas mobilizados. Aliás há muito tempo em Curitiba temos uma forma endêmica de pneumonia, altamente resistente.- Por falar em Medicina, o clínico Cláudio Vasconcellos, que atua no bairro-colônia de Santa Felicidade como médico de família, uma figura de certa forma meio romântica em nossos tempos pragmáticos, pode ir para o Livro dos Recordes com o fato de haver atendido nada menos de 130 mil consultas dentro do modelo.-
Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias vai reavaliar a campanha institucional que já mereceu diversos piches dos não-alinhados: até lombada apareceu num fotograma quando ela é expressamente proibida, ainda mais em BR.- Governo corre o risco de sofrer surpresas piores do que a invasão dos sem-terra ao Banestado e que vão desde ações na justiça até manifestações de traço dramático. Políticos vão alimentar isso.- Pede-se ao governador, por favor, que dê um pulinho a Ponta Grossa ou Palmeira que se convencerá que não pode liberar a cobrança: basta ver as ondulações em São Luis do Purunã, falta de acostamento na Palmeira-Irati-Relógio, isso sem falar em defeitos como ausência de proteção em curvas. O povo, humilhado, agradece.-
FOLCLOREOntem, na CBN, um cidadão sugeriu que se faça o MSC, o Movimento dos Sem Carro e que legitimaria invasões nas concessionárias e com apropriação de veículos em exposição e aí inegavelmente ociosos. É mais fácil invadi-las do que aos desmanches que contam com aguda proteção.
CROMO ‘‘Quero o original, o singular// que não pode ser imitado// bem dobrado sem se fechar// exposto sem ser quebrado.// À falta do original// servem-me um traslado// que não refere cabeça à frente// reporta-se por outro lado.//’’ É o Valmor Marcelino com a plena maturidade da poesia em ‘‘Aversum’’, seu último livro, com recriações verbais, reverências latinas, sem tiques e maneirismos.
AFORÍSTICOE esses pigmeus da política, por que não entregá-los aos caçadores de cabeças?

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