Os brasileiros gostam cada vez menos de Fernando Henrique Cardoso. O episódio do jatinho da Força Aérea Brasileira que levou ministros de férias para o paraíso chamado Fernando de Noronha e as denúncias de favorecimentos a bancos desgastaram a tal ponto o governo que, em matéria de opinião pública, nem Fernando Collor esteve pior.
As pesquisas de opinião que dão queda acentuada e persistente do presidente na preferência dos brasileiros sequer mediram os estragos provocados pela espionagem de quinta categoria praticada por pessoas evidentemente ligadas a alguma esfera do governo.
As gravações de telefonemas - prática escandalosamente comum no governo Fernando Henrique - mostraram polícia grampeando polícia, denunciando ministros e acusando assessores graduados do governo de tramarem uns contra os outros.
Os brasileiros estão estupefatos. Afinal, o que está acontecendo nesse País? Há governo ou desgoverno? Quem está falando a verdade? Quem está no comando dos grampos prejudicando ainda mais o já enfraquecido governo de Fernando Henrique?
Governo, aliás, que mal começou um segundo mandato para o qual foi reeleito em outubro do ano passado. Reeleito no primeiro turno, sem chance para o adversário de sempre Luiz Inácio Lula da Silva.
Fernando Henrique, o otimista incorrigível, achou, desde o início dos sucessivos escândalos, que as histórias cairiam no esquecimento. Rapidamente. O presidente não esperava, sinceramente, que as primeiras denúncias fossem atropeladas por novas suspeições. Uma atrás da outra. Não parou mais.
O presidente insistiu em pairar sobre tudo e todos, evitando pôr a mão na massa (às vezes) podre da política, passando ao largo de pequenas casos de corrupção, mesquinharias, crises de ciúmes e desentendimento entre os ministros. Mas está difícil continuar assim. Quase impossível.
E a culpa não é da imprensa. O presidente costuma acusar os jornalistas de fazerem sensacionalimo. Mas não são repórteres que grampeiam telefonemas, ameaçam e chantageiam autoridades, fazem acertos entre banqueiros e empresas que estão sendo privatizadas.
Nem são jornalistas que inventam bate-boca entre ministros. Ministros que demonstram em público que o governo não se entende. Se não vieram em defesa do presidente no caso dos grampos que envolve o Palácio do Planalto, dificultaram ainda mais, ao expor as tripas do sistema, como diz Fernando Henrique.
Caso dos ministros da Saúde, José Serra, e da Previdência Social, Waldeck Ornélas. Depois de se xingarem pelos jornais, obrigaram o presidente a declará-los ótimos ministros, ou ‘‘seriam demitidos’’.
A esperança do governo, nesse momento, está no feriado religioso desta quinta-feira. Corpus Christi deve esfriar as sucessivas crises encaradas pelo governo.
Mas como não se trata de milagre, a paradinha de amanhã - para a maioria dos políticos, um feriado que só acaba na terça que vem - vai apenas dar um fôlego. E como o presidente declarou: ‘‘Não sou um policial da esquina; sou o presidente da República’’ - quem sabe chamamos o guarda?
- MÍRIAN GUARACIABA é jornalista em Brasília

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