Ministro Malan admite o ataque especulativo ao real
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domingo, 23 de novembro de 1997
Agência Estado Brasília 
LiteraturaO ministro Pedro Malan usou Guimarães Rosa para explicar a crise financeira: Viver é muito perigosoO ministro da Fazenda, Pedro Malan, admitiu ontem, pela primeira vez, que a crise no mercado financeiro, que teve os dias mais críticos no final de outubro, foi um ataque especulativo ao real. Em depoimento no Congresso, na sua explanação inicial aos parlamentares e na qual não economizou elogios ao Senado e à Câmara, Malan ressaltou que, depois da elevação das taxas de juros pelo Banco Central, a reação ao ataque especulativo não poderia ficar restrita a ação da autoridade e teria que ter uma resposta do País. Para o ministro, o momento atual não permite que o Brasil se considere uma vítima pois, segundo advertiu, a crise não acabou e vai ficar conosco mais tempo. Afirmou ainda que o contexto internacional mudou para pior e exige que tenhamos resposta.
Malan chegou ao Congresso exatamente às 9h40, acompanhado do secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Pedro Parente, do secretário da Receita Federal, Everardo Maciel, e do secretário-executivo do Ministério do Planejamento, Martus Tavares. O ministro Antônio Kandir chegou 12 minutos depois, caminhando apressadamente, acompanhado do assessor econômico da Seplan, Amauri Bier.
Todos se dirigiram ao gabinete do presidente do Senado, senador Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA), onde estavam todos os líderes dos partidos aliados do governo no Congresso, além do presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer (PMDB-SP). A audiência pública começou às 10h20, com atraso de 20 minutos, porque antes o presidente do Senado promulgou a emenda que prorroga o Fundo de Estabilização Fiscal (FEF) até 31 de dezembro de 1999.
O plenário do Senado estava lotado quando Malan começou sua exposição. Os funcionários do Congresso precisaram apanhar cadeiras na Câmara, porque as 84 cadeiras do plenário do Senado foram insuficientes para permitir que todos tivessem assento. A oposição marcou presença e o líder do bloco oposicionista, senador Eduardo Dutra (PT-SE), anunciava antes da audiência começar que cobraria de Malan e de Kandir explicações claras sobre o pacote de ajuste fiscal, que arrocha a população. E antecipava a estratégia da oposição: Como eles não vão dar essas explicações, vamos bater.
Desvalorização do real Falando de forma rápida, o ministro da Fazenda ainda deu uma resposta aos que insistem numa desvalorização do real como medida preventiva a novas turbulências. Há quem aposte na maxi-desvalorização, mas temos condições de evitar esse tipo de coisa, disse. Malan admitiu ainda que, no início da crise internacional, a equipe econômica acreditou que, a exemplo do que ocorreu com o México, em 94, a crise ficaria restrita àquela região.
Mas, segundo ele, nenhum analista também foi capaz de prever que a turbulência se espalharia por todo o mundo. Ninguém previu e, novamente num ataque aos que criticaram o governo, Malan disse que, depois da medidas adotadas, é fácil fazer futurologia do passado. Deixando de lado o discurso usado até a crise, quando a equipe ressaltava a tranquilidade do real, o ministro repetiu Guimarães Rosa, afirmando: Viver é muito perigoso.
Numa discurso longo, o ministro do Planejamento, Antônio Kandir, destacou que o Congresso reagiu rápido ao pedido das ruas por ter aprovado a reforma administrativa e a prorrogação do FEF. Para ele, o controle da inflação hoje não é somente um objetivo do governo, mas um sentimento nacional. Kandir destacou também que o governo adotou medidas concretas para incentivar as exportações, na tentativa de reduzir o déficit da balança comercial e, por conseguinte, o desequilíbrio das contas externas.
Primeiro na lista de inscritos para questionar os ministros, o senador José Serra (PSDB-SP) interpelou Malan sobre a manutenção da TR como índice de correção da economia. É uma correção superior à própria inflação, destacou o senador tucano, afirmando que o uso da TR traz consequências econômicas para o governo, pois aumenta os passivos públicos, e também social. Isso porque corrige as prestações da casa própria e as dívidas de Estados e municípios. Numa resposta rápida, Malan confirmou que o governo estuda a extinção da TR como indexador da caderneta de poupança.


