Eu me formei em 1981. Fiz residência em cirurgia vascular no Hospital Evangélico. Em 1984, terminada a minha residência, ganhei uma bolsa para estudar microcirurgia na Universidade de Tóquio. Fui atrás do meu sonho que era fazer microcirurgia e reimplantar membros em Londrina. Ninguém aqui fazia isso. Fiquei em Tóquio quase três anos e me dediquei muito. Em meados de 1986 voltei para Londrina e comecei a minha carreira como profissional.
Assim que eu cheguei precisei operar uma paciente que havia sofrido um acidente e estava com os ossos do calcanhar e os tendões expostos. Naquela época, era indicação para amputação. Foi uma circunstância muito difícil. Eu tinha que provar que aquele tipo de cirurgia era possível. A cirurgia durou cerca de 15 horas. Foi estressante, mas deu certo. Eu tinha certeza de que era capaz. No mesmo mês chegou um paciente com quatro dedos da mão amputados e eu fui tentar reimplantá-los. A cirurgia durou 24 horas.
Eu não pudia falhar nessas duas primeiras. Toda a responsabilidade era minha. Sempre pedi a Deus para me ajudar. Algumas cirurgias me marcaram pelo lado espiritual. Certa vez, eu ia levar meus filhos para a praia e já estava de saída quando me ligaram avisando que tinha uma paciente com o braço amputado e que o braço dela não tinha sido levado ao hospital. Sendo assim, iam terminar a amputação. Eu disse para me esperar e falei para os socorristas: vou levar essa paciente para cirurgia como se o braço dela estivesse aqui. Preparei tudo para reimplantar, mas o braço que não chegava. Depois de três horas de espera decidi terminar de amputar o braço, mas não deixei que guardassem o material de microcirurgia. Quando comecei o processo de amputação a porta abriu e a instrumentadora estava com um saco de lixo cheio de terra e com o braço. Demorei uma hora para lavar o membro e no final deu tudo certo.
Não tem nada mais tocante do que um paciente olhar para você e pedir ajuda. É o que mais me dá força.

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