Minha eguinha pocotó?
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 19 de fevereiro de 2003
Luciano Pires 
''Vou mandando um beijinho/Pra filhinha e pra vovó/Mas não posso esquecer/Da minha eguinha pocotó/Pocotó pocotó pocotó pocotó.''
Esse é o grande sucesso da música popular brasileira, que domingo ocupou horas preciosas do horário nobre do programa do Gugu, batendo recordes de audiência. O autor é um tal de MC Serginho e o ritmo é uma coisa que os do ramo chamam de funk. Enquanto o Serginho recitava a letra, um sujeito efeminado tinha convulsões, que depois descobri ser a tal dança da eguinha pocotó. O nome do sujeito? Lacraia. Meus amigos, neste domingo consagrou-se o mais novo ídolo da música popular brasileira: o Lacraia.
''O jumento e o cavalinho/Eles nunca andam só/Quando sai pra passear/Levam a égua pocotó/Pocotó pocotó pocotó/Minha eguinha pocotó.''
Enquanto o índice da audiência subia, a atração era mantida no ar. E à noite, foi orgulhosamente reprisada por um Gugu exultante com a audiência histórica. Neste domingo, milhões de brasileiros assistiram, espero que envergonhados, ao triunfo da mediocridade. A afirmação de que existe, sim, um processo para mediocrizar o Brasil.
Eu sou pai. E assisto, consciente de minha impotência diante da máquina da TV, minha filha de 12 anos se divertindo, cantando e dançando o pocotó. Por sorte ela não entende as letras paupérrimas, chulas, apelando para o sexo e tratando as mulheres de éguas e cadelas.
Sabe o que mais dói? É que enquanto essas baixarias ocupam horas do horário nobre, os brasileiros que fazem música de qualidade, estão sendo deixados de lado. Vale o que os homens de marketing das gravadoras acham que vai vender. E dá-lhe a dança da garrafa, a dança da cadela, a dança da eguinha...
Nessas horas, tenho vergonha de ser um profissional de marketing. Imagino que se aparecessem hoje dois jovens, com seus 23 anos, chamados Caetano Velloso e Gilberto Gil, seriam deixados de lado em favor do tal MC Serginho ou outras mediocridades que vendem.
E não teríamos o Tropicalismo. Surgisse um Chico Buarque, com seus 20 e poucos anos, não chegaria nem às rádios alternativas. Porque alguém está decidindo, com a bunda, o que o brasileiro vai ouvir. E assistir. O resultado é a mediocrização da música popular brasileira. A popularização do lixo. A lavagem cerebral da garotada.
Que música estará sendo feita no Brasil daqui a 30 anos, pelos garotos que estão tendo a cabeça feita pela eguinha pocotó? Eu me senti ofendido. E o consolo de desligar a televisão, não adiantou. Eu sabia que outros milhões de brasileiros estavam naquele momento, assistindo o jumento, o cavalinho e a eguinha pocotó, sem perceber que a TV os chamava de burros.
LUCIANO PIRES é um profissional de comunicação, jornalista, escritor, conferencista e cartunista e Diretor de Comunicação Corporativa da Dana


