Minas: cuidado! - TT Catalão
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quarta-feira, 03 de março de 1999
TT Catalão 
Entrou em vigor, segunda-feira, o Tratado de Ottawa que proíbe o uso e a venda de minas antipessoais. Mesmo com 67 países sem ratificá-lo, o acordo inicia a desativação dessa covarde arma que continua matando depois da guerra propriamente dita. A tragédia maior das minas explosivas é que não há mapas seguros de localização para desativá-las. São colocadas no calor do combate e depois esquecidas. Mas continuam letais para quem nelas pisa. São 110 milhões de minas ainda ativas, subterrrâneas, detonadas 90% dos casos pela população civil. Minas espalhadas sem critério e perigosas por vocação matam 26 mil pessoas por ano.
As minas, armas, são genéricas no ataque, mas gerais quando se trata de política: todos sofrem. Continuam criminosas depois da batalha pelo tanto de vítimas que provocam. Inocentes e incautos civis sofrem as consequências de comandos autoritários.
O Brasil também tem Minas. Minas, o Estado. Não menos polêmico e explosivo pelas posições radicalizadas do governador Itamar Franco. Armas antipessoais não são necessárias para resguardar o confronto de fronteiras entre o País e seus vizinhos latinos. Mas, no momento, armas - principalmente verbais - vêm deteriorando nossas divisas estaduais. A União não faz mais a força. Mas a forca.
O governo federal lida com uma face de Minas ainda inédita em sua tradição de malícia, sutilidade e símbolo da política-raposa, esguia e estratégica. Como referência cultural e histórica, Minas é patrimônio de dignidade e contém viscerais contribuições para a formação brasileira. Mas o que há por trás ou por baixo dessa Minas subterrânea que agora se apresenta com um tom desmedido de provocações colegiais?
O presidente e o governador estão em um litígio aparentemente político mas de grande fundo pessoal. Antes parecia um levante dos Estados contra a abusiva centralização federal, mas agora a tal insistência folclórica na trincheira compromete a honrada tradição da sabedoria mineira. Como Freud já não explica mais nada depois da Internet, as razões profundas da crise ultrapassam os desígnios mínimos do bom-senso.
Exatamente quando todos os governadores caminham para o diálogo federal, a posição do governador mineiro - que vê retaliação onde há ressarcimento, por não ter honrado uma dívida - remete-nos a uma situação próxima do ridículo com repercussões civis, muito parecidas com as das minas-armas: todos sofrem!
E como todas as minas-armas, são obscuras. Estão enterradas, covardes, à espera do pé da inflação, da pisada especulativa do dólar disparado, da chacota internacional quanto a nossa disfunção cucaracha interna - como um articulista racista norte-americano nos classificou.
Para as minas-armas restam ainda seis oficiais e um sargento do Exército capacitados para desarmá-las em missões na América Central. Mas para a caricata Minas armada temos, enfim, a proposta conciliatória do presidente da OAB, Reginaldo de Castro, que criaria um Tribunal Arbitral com um indicado pela União, um pelo governo de Minas e um senador ou ex-ministro do STF para o desempate.
Sem desarmar os espíritos, nem o Tratado de Ottawa nem o tribunal da OAB terão êxito na missão principal: evitar que inocentes sofram as consequências de desatinos (sejam herdados ou novos, acumulados).
- TT CATALÃO é jornalista em Brasília


