Mim querer ''chefe''!
Tem gente sofrendo com as eleições no continente americano. Alguns, de longe, apenas acompanham o desencadeamento do processo eleitoral (ou do sistema eleitoral processado). Outros, sentindo na pele, ou melhor, nas mãos, recontando os votos, conforme determina a lei estadual da Flórida, que, quando a diferença for inferior a 0,5 ponto percentual, seja feita a recontagem automática. Pior, tal recontagem é manual, como a primeira.
Como o modismo neste país é de processar, seja quem for, e independente do motivo, até o final das recontagens, sabe lá quantas, os escrutinadores poderão processar o governo daquele país por Lesão por Esforço Repetitivo (LER). Em plena terra da mais alta tecnologia, no berço da Microsoft, num país onde a criança nasce literalmente falando arroba, brinca de computador e não de médico e muito menos de índio e passa seu endereço apenas por e-mail faz-se uma tarefa de exequibilidade náufraga e ultrapassada.
Muitas foram as formas de votação nestas eleições, diversificadas por cada Estado e pelas leis da mesma esfera. Votou-se pelo computador e através de cédulas de papel (alguns modelos perfurados, outros por leitura ótica). O voto pelo Correio também é permitido. O difícil é explicar como duas cédulas das eleições presidenciais, procedentes de Washington, apareceram numa caixa de correio da Dinamarca. Resta-nos saber se esta forma de voto foi pelo sistema tradicional ou por pombo? E mais, caso sejam votos para candidatos opostos, dada a ínfima diferença, se fará a recontagem destes também, como manda a lei da Flórida?
É verdade anunciada, pós-fato, que a política eleitoral desta federação encontra-se em estado delicado, se enfocada sob dois prismas: a falta de rigorosidade e modelo homogêneo de voto e o ímpio processo de alçar um candidato com o menor número absoluto de votos populares, na hipótese de George W. Bush ser o escolhido, no cargo político mais importante do Planeta. Tão pouco fosse, o tempestuoso sistema atual está fadado a deslinde, sob suspeita de fraude em alguns estados, reforçando ainda mais a idéia de reforma política naquele país.
Decerto, não obsta que a Justiça diligencie tais causas provindas deste capítulo negro na história das eleições norte-americanas. Faz-se mister ter em vista, por outro lado, tal empregabilidade daquilo que chamamos de democracia (do grego demos/povo e kratos/poder), regime político nascido na Grécia Antiga, praticado de forma direta ou clássica, com os membros da comunidade deliberando diretamente sem representantes para isso.
Teria o povo desta nação força e representatividade real, e não legal, como o praticado, se postado é, hierarquicamente, sob a força do colégio eleitoral? Este sim, dono do verdadeiro voto decisionário/coercitivo? Não, se considerar-mos que tais delegados escolhidos tenham um vínculo umbilical junto aos candidatos, e não legalmente à decisão do povo.
Aliás, pouco importa esse desencontro entre o lado formal e a prática, se tal democracia é falsa ou real, ao considerarmos que ambos os candidatos à presidência daquela república não colocarão em risco, no seu pleito, o bojo do interesse americano diante das raízes históricas, antropológicas e, logo, culturais desta sociedade. Diante disso, dar-se-á por necessidade, a fungibilidade governamental, voltado ao maior império político-econômico-egocêntrico do Planeta.
Se por um lado perdura um dissabor de toda a história, pela influência, intervenção, discórdia, desinteresse, pressão e, em alguns casos, pelo menosprezo a outras nações, tribos e povos do Planeta, influenciadas pelo novo chefe, surge o momento para a reciprocidade das críticas e sugestões para com eles. Impossível será, por exemplo, a maior potência do mundo não se curvar diante da organização e da tecnologia desenvolvida pelos brasileiros para as nossas votações. O TSE emprestou junto a embaixada americana, em Brasília, quatro urnas eletrônicas para que eles simulassem uma votação. Deu Al Gore disparado. Quanto ao resultado? Saiu na hora, sem o risco de fraude e sem o risco dos votos saírem bailando pelo mundo afora!
Na urna eletrônica brasileira, até mesmo os índios votam, sem maiores complicações, very good! (refiro-me aos tupiniquins. Já aos apaches...).
No Brasil, o voto é obrigatório. Com 109 milhões de eleitores no primeiro turno, em 5.559 municípios, obtivemos o resultado em 29 horas. Para o segundo turno, votaram 26,5 milhões de eleitores, em urna eletrônica, em 31 cidades com mais de 200 mil habitantes. O resultado foi divulgado em cinco horas e 42 minutos após o encerramento e o lacramento das urnas, às 17 horas.
Nos EUA, o voto não é obrigatório. Contudo, foram às urnas 51% dos eleitores, cerca de 100 milhões. O resultado? A imprensa americana divulgou, sabe-se lá como, apontando como vencedor o candidato republicano Bush, como sendo o 43º presidente da história dos EUA. Houve precipitação, houve falha no primeiro mundo. A situação foi de constrangimento total.
Quanto à dúvida sobre qual dos candidatos fará o bem para o Brasilzinho... Nessa altura do campeonato, em ipis verbis às palavras de Clóvis Rossi, irrelevante seria dar Gore ou Bush. No caso, é o inverso: o processo eletrônico do Brasil é que seria muito bom para os apaches.
- CLEI GILBERTO BROENSTRUP é administrador de empresas e acadêmico de Direito em Londrina
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