André Stumpf
O brigadeiro Walter Werner Brauer deixou o cargo de comandante da Aeronáutica fazendo pesadas críticas às políticas de privatização do setor. Disse ele que a venda de aeroportos, das ações da Embraer e a criação da Agência Nacional de Aviação Civil servirão ‘‘a interesses alienígenas que buscam, por intermédio do lucro fácil, garantir seus obtusos e particulares objetivos’’. Foi muito aplaudido, para constrangimento do ministro Élcio Álvares, da Defesa, presente à solenidade.
A criação do Ministério da Defesa e a designação de um civil para chefiá-los expuseram um nervo do sistema de poder no Brasil. Os militares, aqui, desde a criação da República, constituíram um núcleo à parte na vida nacional. Assumiram como suas as teses nacionalistas, defenderam seus princípios de economia estatizada e os praticaram em larga escala. A história recente do desenvolvimento do Brasil se confunde com as necessidades de modernização e reaparelhamento da tropa.
Várias estradas, como a Cuiabá–Santarém, por exemplo, figuram nos mapas do Estado-Maior desde os anos 40. A necessidade de controlar a aviação civil aponta no sentido de haver uma força de reserva em caso de guerra. E empresas como a Embraer constituiriam, no desenho estratégico militar, a vanguarda em matéria de pesquisa aeroespacial.
O problema, nesse início do terceiro milênio, é que a perspectiva de confronto militar passou a ficar distante. O poder hegemônico exercido pelos Estados Unidos não admite conflitos regionais. O Pentágono impõe sua disciplina, quando necessário. Os exemplos de Kosovo e do Iraque são eloquentes. E a guerra em escala mundial só Washington pode fazer. Tudo isso garante a chamada globalização.
Forças regionais, como é o caso brasileiro, perderam objetivos imediatos. A Argentina, tradicional adversário no continente, transformou-se, em matéria de economia, em mais um Estado da Federação brasileira. Ao Norte, a Venezuela vive um caldeirão político e a Colômbia está entregue aos narcotraficantes, guerrilheiros, paramilitares e o que sobra disso às forças de seu exército.
O brigadeiro Brauer tem toda razão quando diz que faltam verbas para modernizar os equipamentos disponíveis. É verdade. Mas faltam verbas para escolas, hospitais, estradas. Falta dinheiro para tudo, porque os brasileiros estão pagando a dívida da farra cambial que embebedou o País nos últimos cinco anos. Custou mais de US$ 400 bilhões. É preciso pagar a conta. Não se culpe o Fundo Monetário Internacional pela situação de arrocho interno. A responsabilidade é dos brasileiros.
O grito que vem da Aeronáutica revela, somente, que os militares estão se integrando à vida deste País. E sendo convidados a discutir assuntos eminentemente técnicos. Estão deixando as funções civis. Se é bom ou mau, o futuro vai dizer. Mas é fato que nos últimos anos, oficiais das três Armas discutiram muito mais política que assuntos diretamente ligados a seu ofício.
Quando brigadeiros começarem a divergir entre si sobre o tipo de avião adequado para exercer determinada missão, terão dado um passo à frente na sua, as vezes, dolorosa reinserção na sociedade brasileira. Esse é o caminho que eles, cedo ou tarde, vão percorrer para redescobrir a missão das forças armadas de país subdesenvolvido no mundo globalizado.

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