José Antonio PedrialiMil tiros no pé
Quem se atreveria, em ano eleitoral, a desagradar cabos eleitorais, principalmente se eles forem prefeitos, cuja força de transferência de votos deve ser considerada um dos instrumentos mais poderosos de qualquer candidato? Pois, ao barrar a entrada dos prefeitos no Palácio do Planalto, terça-feira, usando para isso soldados do Exército armados com metralhadoras, a tropa de choque da PM com escudos e cães de guarda, o presidente interino Antônio Carlos Magalhães (PFL) deu um tiro no pé da candidatura à reeleição de Fernando Henrique Cardoso. Aliás, mil tiros, pois a comitiva era composta de aproximadamente mil prefeitos.
Fernando Henrique não teve nada a ver com o quiprocó, pois estava do outro lado do mundo, em Genebra, falando sobre iniquidades comerciais impostas aos países emergentes com os principais chefes de Estado e de governo do planeta, mas, para os prefeitos, não interessa: o titular do cargo é FHC e é ele, portanto, que sofrerá as represálias. ‘‘Daqui para a frente’’, disse o prefeito de Roncador, Odilon Gonçalves, ‘‘será a curva descendente’’. Ele se referia ao desempenho eleitoral de Fernando Henrique. E Odilon Gonçalves é tucano, tucano como o presidente...
Os prefeitos são cinco mil em todo o País e cerca de dois mil participaram da ‘‘Marcha a Brasília’’, segunda e terça-feiras, movimento que reivindica maior atenção da União em relação à crise crônica dos municípios. Diante do Planalto estiveram mil dos participantes que não queriam invadir o palácio, não queriam depredar nada e muito menos saquear móveis e utensílios - nem, na pior das hipóteses, levar ACM à guilhotina. Queriam apenas mostrar que estão coesos em sua campanha, unidos num mesmo ideal e, se possível, que pudessem falar com o presidente. Como o titular do cargo não estava, serviria até o interino, mesmo que o interino fosse ACM.
Mesmo que fosse ACM porque o guru da Bahia não permitiu que os prefeitos de seu Estado se juntassem à ‘‘Marcha’’ e empunhassem a bandeira de seus municípios. ACM, pelo menos, recebeu um pequeno grupo deles e, diplomaticamente, garantiu que iria se empenhar pela causa municipalista no Senado, para onde voltará assim que FHC voltar de sua viagem à Europa.
As prefeituras brasileiras devem, somadas, aproximadamente R$ 15 bilhões e pedem tratamento igual dado aos governos estaduais, que acabaram de renegociar suas dívidas, ou estão a ponto de, com amortizações generosas e até 30 anos para quitá-las. Os prefeitos querem maior repasse do Fundo de Participação dos Municípios - aquela fatia, hoje pequena, a que têm direito no total das receitas nacionais. E outras reivindicações, para que não tenham que apagar as luzes e fechar as portas das prefeituras, como está acontecendo no Paraná, São Paulo, Mato Grosso do Sul e outros estados.
O coronel Giovani de Morais, chefe-adjunto da segurança do Palácio do Planalto, justificou a presença da tropa durante a manifestação dos prefeitos alegando ter sido um mal-entendido. A tropa foi posta de prontidão, segundo ele, para impedir eventuais arruaças durante o ‘‘Grito da Terra’’ promovido simultaneamente em Brasília pela Confederação Nacional da Agricultura. Ontem, durante protesto dos sindicalistas na Esplanada dos Três Poderes, não houve engano: a tropa de choque utilizou bombas de gás lacrimogêneo e a cavalaria para dissolver os manifestantes. Em Lisboa, última etapa de sua turnê européia, FHC, referindo-se à proliferação de protestos pelo país, afirmou que ‘‘o povo não vai escolher um candidato porque ele gritou mais ou menos’’.
Até o momento, quem tem tentado gritar mais é a oposição. Mas quem tem agido mais... é a tropa de choque.
O artigo do jornalista José Antonio Pedriali, habitualmente publicado na página 4, está saindo excepcionalmente hoje neste espaço.

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