Miguel Ignatios
Miguel Ignatios
Déficit e
Estado jurássico
Uma rápida olhada nos indicadores das contas públicas de 97 basta para nos darmos conta de que, apesar de toda retórica privatista, o Estado brasileiro continua superdimensionado, esbanjador de recursos do Tesouro, mau patrão, lento e burocrático; em uma palavra, jurássico. Para justificar o déficit público de 5,9 bilhões, o ministro Malan jogou parte da culpa nos Estados, alegando que eles têm poder constitucional para aplicar os recursos como melhor lhes aprouver. Sem dúvida, um boa desculpa. Mas só isso.
Mesmo que os números divulgados pelo Banco Central sejam provisórios e sujeitos à correção, pode-se deduzir desde já que se o governo não tivesse criado a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CMPF), com a qual arrecadou R$ 6 bilhões ao longo do ano passado, o déficit público teria sido o dobro, ou seja, quase R$ 12 bilhões. Ainda bem que foi criada a CPMF, dirão os ingênuos. Que seria das contas públicas sem ela?
Os panglossianos de plantão apressar-se-ão em lembrar que o déficit público vem caindo paulatinamente desde a adoção do Plano Real. É verdade. Mas ele vem diminuindo muito menos do que seria desejável para um programa de estabilização da economia de longo prazo.
Não é preciso ser economista para saber que uma das principais causas - talvez a mais importante - da inflação é o déficit público (tudo o que União, governos estaduais e municipais, autarquias das três esferas administrativas e estatais) gastam sem terem recursos para tal. Ora, o Plano Real tirou o país da hiperinflação, desindexando a economia via preços e salários, que são os sintomas mais perceptíveis da febre inflacionária, mas não a sua causa. Em outras, palavras, o governo esperou o paciente, no caso a economia, melhorar para depois operá-lo.
De fato, a melhora foi de tal ordem que até deu a impressão a alguns de que o doente já estava totalmente curado. Até mesmo os autores do Plano Real convenceram-se disso. E ao invés da operação optaram pelo tratamento homeopático do déficit público. O preço social de tal equívoco tem sido altíssimo: o desemprego não pára de crescer desde abril de 95. E, contrariando o discurso oficial, não é exclusivamente industrial, nem localizado na região da Grande São Paulo.
Se o governo tivesse simultaneamente à desindexação atacado o déficit público, hoje não haveria necessidade de se manter os juros em patamares tão elevados. Com isso, o setor produtivo da economia poderia adaptar-se mais rapidamente às novas tecnologias e realidades mercadológicas, com menos sacrifícios para empresários e trabalhadores.
Ao invés disso, o governo - segundo reiterou recentemente o ministro Malan aos burocratas do FMI - preferiu adotar e manter uma moeda forte. Ainda que às custas do esmagamento dos cidadãos (aqueles que trabalham na iniciativa privada, pagam impostos e recebem de volta serviços públicos de péssima qualidade, que lêem a cada dia nos jornais que a minguada aposentadoria encurta cada vez mais e que tremem de medo de perder o emprego a cada novo pacote).
Mantida a atual política, o País corre o risco de entrar no século 21 dividido em quatro grandes classes: os estatocratas, beneficiários das benesses de um Estado centralizador, gigantesco, perdulário, corporativo e ineficiente; os empresários que, apesar de tudo e de todos, conseguirem salvar suas empresas e torná-las competitivas e modernas em termos tecnológicos; os ex-empresários, arruinados pela voracidade fiscal do Estado; e, por último, os desempregados. É muito triste!
- MIGUEL IGNATIOS é presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB) e a Fundação Brasileira de Marketing (FBM).





