Miguel Ignatios
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 17 de maio de 1999
Miguel Ignatios 
O acordo de três meses entre a indústria automobilística, metalúrgicos e governo (estadual e federal) foi um sucesso. Nunca em tempos de recessão se vendeu tantos veículos novos como aconteceu durante os meses de fevereiro, março e abril. Por sua vez, devido ao crescimento das vendas, as arrecadações do ICMS e do IPI também aumentaram, apesar de suas alíquotas terem sido provisoriamente rebaixadas. Tudo ia muito bem até que, numa atitude precipitada, típica de alguns setores acostumados a conter todo e qualquer bolha de elevação de consumo acionando o freio de mão dos impostos, o governo federal voltou a cobrar as alíquotas normais do IPI, no começo de maio.
Obviamente, tal atitude foi imediatamente seguida pela elevação média de 9% praticada pelas montadoras nos preços dos automóveis. Os trabalhadores protestaram, os consumidores se retraíram e tudo voltou ao estado de coisas anterior ao início da vigência do acordo. Felizmente, todavia, o bom senso foi aos poucos sendo restabelecido. Percebendo o erro que cometera, ao voltar às alíquotas normais do IPI antes de se expirar o prazo dado pelo governo paulista para o ICMS rebaixado, a União recorreu a uma medida provisória para prorrogar pelo menos até o final deste mês as alíquotas vigentes no período em que durou o acordo entre as partes (montadoras, trabalhadores e governos estadual e federal).
Após o recuo dos tecnocratas federais, as montadoras, representadas pela Anfavea, e lideradas pelo seu presidente José Carlos da Silveira Pinheiro Neto, também prometeram rever as majorações dos preços e colocar as planilhas de custos à disposição do governo e dos trabalhadores. Papel importante para a retomada das negociações coube ao governador Mário Covas, de São Paulo.
Mas, por qual motivo, deve estar se perguntando o leitor, o governo federal adiantou-se às demais partes representadas no acordo, colocando, de tal forma, em risco a continuidade de algo que até então vinha sendo um sucesso para todas elas e - e mais importante do que tudo isso - beneficiava o consumidor?
O uso do cachimbo deixa a boca torta, diz um velho e sábio adágio popular. Ou seja, acostumados a negociações nas quais costumavam ter a faca e o queijo nas mãos, os tecnocratas federais foram traídos pelo mau hábito de sempre jogar antes dos demais parceiros. Em outras palavras, ao se sentarem à mesa para discutir a renovação do acordo, eles já haviam garantido a parte que lhes interessava, ao elevar preventivamente as alíquotas do IPI. Essa é uma prática que nós já imaginávamos banida da vida pública brasileira!
Corrigida a gafe dos tecnocratas federais, por meio do recuo na questão das alíquotas do IPI, surgem novamente daqui para frente condições mínimas para se chegar a um novo e frutífero acordo no qual todos possam ganhar alguma coisa. É importante que isso aconteça. Não podemos nos esquecer das taxas alarmantes do desemprego que não param de crescer nas regiões metropolitanas do País.
Cada emprego direto mantido ou gerado na indústria automobilística cria ou preserva pelo menos outros três ou quatro indiretos nos setores de autopeças, de consertos, de serviços e de fundição de peças. Além disso, está também em discussão um plano para renovação da frota nacional de veículos particulares, que se for adotado poderá transformar-se em pouco tempo em importante baliza para a retomada do desenvolvimento auto-sustentável do País.
No médio prazo, o principal benefício da eventual renovação da frota brasileira de veículos leves seria, sem dúvida, tornar as montadoras instaladas no País mais competitivas em termos de conquista permanente de fatias cada vez maiores dos mercados internacionais. Portanto, a renovação do acordo entre governos, indústrias e trabalhadores é essencial para a retomada firme do desenvolvimento, já a partir do segundo semestre.
- MIGUEL IGNATIOS é presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB) e da Fundação Brasileira de Marketing (FBM), em São Paulo
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