O rescaldo da derrota da Seleção Brasileira, na Copa da França, começa a mostrar aspectos interessantes. Afora os ditos e desditos sobre a campanha do escrete canarinho, tem agora essa curiosa, para não dizer horripilante, relação entre o ídolo Ronaldo, a mídia e o povo.
Enquanto ídolo de esporte, ou Ronaldo é bom de bola, ou não é. É bom de bola. Agora, será que ele é realmente tudo isso que a mídia diz que ele é? Quanto há de mítico nessa titulação ‘‘de maior jogador do mundo’’ (escolhido por entidades internacionais, por dois anos seguidos)?
Como disse Roland Barthes, ‘‘o mito é uma fala’’. O mito não existe pelo que é, mas pelo que se diz dele. Qualquer coisa pode se tornar um mito, ‘‘desde que seja suscetível de ser julgado por um discurso’’. (R. Barthes, ‘‘Mitologias’’, Ed. Difusão Editorial, 1982). Pode-se verificar, diariamente, todos os discursos que circulam mundialmente a respeito do jogador Ronaldo.
Com apenas 21 anos, tem sido o número 1 no ranking mundial por duas vezes consecutivas. Isso obviamente eleva seu cartaz na preferência popular e o cacife nas transações empresariais futebolísticas, aquelas que envolvem fábulas de dólares.
Ronaldo é o futebolista mais bem pago do planeta - embora ninguém saiba o quanto de dinheiro realmente entra no seu bolso e a Receita Federal confere. O jogador teve inventado um look, um visual novo, a careca e o brinco (andou até usando um aparelho odontológico para corrigir, um pouco, sua arcada dentária superior). E arranjou, também uns trejeitos personalizados (aquela forma de celebrar cada gol marcado, de correr uns metros, com os braços em asas, parar, dar uma gancho de direita no ar).
Mas a mídia precisava falar mais, inventar mais, discursar mais acerca do mito Ronaldo. Porque mitos pós-modernos são mitos feitos na mídia e a mídia sobrevive de mitos. Quantas vezes, por dia, os jornalistas e os publicitários chamam Ronaldo de ‘‘o maior jogador do mundo’’? Mesmo que ele não fosse, de fato, tão extraordinário assim, mesmo que fosse superado, na prática, por um talentosíssimo jogador inglês, Owen, de 18 anos, revelação dessa última Copa. A mídia já montou um sistema complexo demais para, de repente, substituir o ídolo.
Notem que o mito Ronaldo começou a anunciar a vida da Copa da França como uma espécie de ícone (lembram dos curta-metragens publicitários?), que emergia com um dedo em riste, de número 1, numa alusão ao seu título e, evidentemente, ao seu patrocinador - uma indústria cervejeira que se autoproclama ‘‘a nº 1’’. (Demorou, mas, felizmente, integrantes de entidade públicas que tratam de dependentes químicos resolveram questionar a atitude contraditória do atleta, associando seus feitos de equilíbrio físico e mental a um produto cujos efeitos nocivos todos conhecemos).
Fizeram mais: fizeram Ronaldo travestir-se de ‘‘Cristo Redentor’’, esticando os braços sobre a Baía de Guanabara. Depois disseram que o Papa João Paulo não teria gostado disso, e arrumaram uma audiência entre o jogador e o Sumo Pontífice, a pretexto de que o atleta se desculpasse. (O marketing deu errado, porque o Papa não sabia quem era Ronaldo e muito menos o esporte que ele praticava. Serviu de armação empresarial, para revigorar o mito e sua cotação no mercado).
Mas fizeram mais, ainda: Ronaldo virou garoto-propaganda de uma indústria de lacticínios internacional, que tem em crianças mimosas, vestidas de bichinho, seu cartão de visitas. Lá foi Ronaldo fazer conjunto com os inocentes bebês. O atleta que faz propaganda de bebida alcoólica também faz propaganda de leite. Mito é mito.
O que entristece é saber que o marketing da mídia consegue mobilizar tanto assim o emocional do povo brasileiro. Tudo bem que mobilizasse um pouco, mas que não chegasse às rais da histeria. Claro, a mídia por si só não conseguiria todo esse resultado se não contasse com um terreno fértil na mentalidade coletiva.
Ronaldo está mais presente na escola e na família do que, por exemplo, o negro Henrique Dias - este sim, um autêntico herói nacional, por mérito. Nascido filho de escravos, no início do século 17, Henrique Dias recebeu o foro de fidalgo por serviços prestados como soldado, nas batalhas contra os holandeses. Sem dúvida, um dos maiores patriotas brasileiros. Sua biografia é estudada nas escolas?
Acredito que a falta de informação histórica deixa o brasileiro sem parâmetros para comparar os feitos de seus heróis e ‘‘heróis’’. A falta de cultivo de nossa memória tem permitido que nos ‘‘vendamos’’ aos mitos de ocasião, aos ídolos fabricados pela indústria cultural.
Ronaldo não merece mesmo a pressão que está sofrendo.
- JOEL SAMWAYS NETO é escritor e procurador do Estado do Paraná

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