Ao invés de uma refeição saudável, uma bolacha e leite diluído em água. Essa foi uma das consequências de um forte esquema de desvio de recursos federais destinados à merenda escolar, uniformes e material didático em municípios dos Estados de São Paulo, Bahia, Paraná e no Distrito Federal. O crime veio a público nesta quarta-feira (9) após a Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União deflagrarem a Operação Prato Feito. A maioria das cidades onde a fraude ocorria está no Estado de São Paulo - cerca de 30 localidades.
Após quatro anos de Lava Jato e a prisão de tantos políticos e empresários suspeitos, a Prato Feito poderia ser apenas mais um escândalo. Mas revoltam as evidências de que nem a já modesta merenda de escola pública passou ilesa pela bandidagem do colarinho branco. Denúncias mostram que além de servir uma bolacha com leite "enfraquecido", os criminosos mandaram substituir carne por ovo e em Araçatuba, no interior de São Paulo, as crianças teriam sido proibidas de repetir as refeições e começaram a receber "pratos feitos" - inspiração para o nome da operação.
O golpe pode chegar a R$ 1,6 bilhão no total. O valor é alto. Mas o que mais espanta é a tranquilidade com que os corruptos passaram a mão no dinheiro destinado a um setor tão importante: o ensino fundamental. O dinheiro desviado foi repassado por meio do Programa Nacional de Alimentação Escolar e há indícios de envolvimento de 85 pessoas: 13 prefeitos, 4 ex-prefeitos, 1 vereador, 27 agentes públicos não eleitos e outras 40 pessoas ligadas à iniciativa privada.
Como acontece em muitos escândalos de corrupção, os agentes públicos eram procurados com propostas de vantagens ilícitas em troca de benefícios em contratos e processos de licitação. A polícia calcula que o cartel operava há pelo menos 20 anos no desvio do dinheiro público. A polícia cumpriu mandados de busca e apreensão na casa e gabinete dos prefeitos das cidades de 13 municípios de São Paulo. Buscas também foram feitas em Curitiba, Salvador e Brasília. Agentes públicos já estão afastados preventivamente e houve a suspensão de 29 contratos com o poder público. Se comprovado o esquema criminoso, os envolvidos podem ser condenados por fraude a licitações, associação criminosa, corrupção ativa e corrupção passiva, com penas que variam de um a 12 anos de prisão. Um esquema gigantesco que espanta e causa indignação. Nem a merenda escapa.

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