Ele tinha tudo, menos limite. Este é o slogan do filme ''Meu Nome Não é Johnny'', em cartaz nas salas de cinema de todo o País. O longa-metragem conta a história de João Guilherme Estrella, jovem carioca de classe média que constrói uma trajetória meteórica no mundo das drogas. Dono de um carisma e de uma lábia digna de grandes comerciantes, Estrella passou de simples usuário ao posto de maior vendedor de cocaína da elite do Rio de Janeiro.

Depois de promover muitas festas e até viajar para a Europa levando drogas, ''a casa caiu'', em 25 de outubro de 1995, quando foi preso com 6 kg de cocaína em um apartamento de Copacabana. As manchetes dos jornais do dia vinham acompanhadas da foto do ''poderoso traficante'' Johnny, apelido dado pela própria imprensa que lhe rendeu respeito ao chegar na cadeia.

E é ali que a vida dele muda de rumo. ''Usei a prisão como gancho. Ao mesmo tempo em que tentava sobreviver naquela selva, estava batalhando pela minha melhora'', conta o ex-traficante nesta entrevista exclusiva à FOLHA. Quase dez anos depois de ganhar a liberdade, Estrella quer usar sua história de vida como referência para os jovens. Se depender dos números, está funcionando. Após dez dias em cartaz, o filme já foi visto por 750 mil espectadores.

Prova de que ainda é possível acreditar na recuperação do ser humano, o agora produtor musical tem uma canção incluída na trilha sonora do filme sobre sua vida, e está prestes a realizar um grande sonho: no final de fevereiro lança o primeiro disco da carreira, pela gravadora EMI. Com uma história dessas, dá para entender porque ele tem Estrella até no nome.

Tanto em ''Tropa de Elite'' quanto no filme que conta sua história, fica clara a forte participação da classe média na rede do tráfico de drogas. É certo jogar a culpa para cima da classe média?
Na minha opinião não. É muito fácil para uma sociedade inteira culpar uma fatia dela por uma coisa que é responsabilidade de todos. Todos elegemos os governantes que pegam nosso dinheiro e fazem uso dele. Se não cobramos o bom uso, temos essa culpa. Além disso, existem pessoas excluídas da sociedade porque não se dá oportunidade em educação. Em vez de criar médicos, engenheiros, professores, estão criando novas gerações de pessoas sem perspectivas que podem ir para o crime. A proposta do ''Meu Nome Não é Johnny'' é contar uma história que tem os dois lados. Tem a diversão, a festa, a encrenca do grande consumo de drogas, e as consequências que isso traz. Para o jovem é bom ver a consequência, porque ele não liga muito para o que vai acontecer. É uma forma dele comparar, porque muitas vezes faltam referências. O jovem é bastante aventureiro, se arrisca. Não dá para sentir na pele vendo o filme, mas dá para se sentir quase lá dentro.

Por que o assunto droga ainda não é devidamente discutido na mesa de jantar das famílias?
O mais importante é melhorar esta discussão, deixá-la mais eficiente e menos hipócrita, sem tabu, sem moralismo. O caminho principal, para começo de conversa, é a educação, que é a primeira verba a ser cortada por qualquer governo quando há problemas no orçamento.

Pegando seu exemplo, o senhor acha que seria diferente se os seus pais tivessem conversado sobre o assunto?
As pessoas, para falarem do assunto, precisam se informar também. Quando tinha 14 anos e fumei meu primeiro baseado, tinha uma família bem estruturada, amorosa. Existia diálogo dentro de casa, mas era um assunto que meus pais não conheciam. Talvez ajudasse. Sempre ajuda perceber como está seu filho, ver se ele está precisando de ajuda, fazê-lo se sentir seguro ao voltar pra casa. Você não pode ser inimigo do seu filho, aquele que vai tirar a liberdade dele. Mas para ter liberdade, é preciso confiança e diálogo. Fumei meu primeiro baseado todo preocupado, com medo de ficar maluco, da polícia me pegar. Na verdade, depois de ter fumado, bater um papo com meu pai teria sido legal. O jovem tem que ter noção de que isso é possível. De que o pai não vai expulsar de casa, não vai internar. Vai tentar colaborar de uma forma mais sadia, mais amiga.

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