Uma série de erros do governo produziu uma situação delicada, aumentando as dificuldades para o cumprimento da meta inflacionária de 2002. De acordo com a meta fixada, o Brasil deverá ter uma inflação de 3,5% no ano que vem, com um intervalo de 2 pontos percentuais para cima ou para baixo: ela pode ficar entre 1,5% e 5,5%. Mas as pressões que o Banco Central terá que administrar para manter a inflação nesse intervalo são muito grandes.
O grosso das pressões sobre a taxa de inflação em 2002 vem do reajuste das tarifas públicas em torno de 20%, conforme sinalização do próprio governo, o maior deles da energia elétrica. Significa que vamos ter algo como 2,5% de inflação produzida pelo tarifaço, graças aos erros cometidos no processo de privatização, quando o governo permitiu que se calculassem os reajustes em função da variação do dólar e foi muito pouco eficiente na regulamentação do setor. Ao negligenciar os investimentos na geração e distribuição de energia, deixou-se surpreender pela crise no abastecimento, forçando o racionamento. Com a redução do consumo, caiu o faturamento das empresas fornecedoras de energia que obtiveram do governo - a título de compensação - licença para antecipar aumentos de tarifas. Para os consumidores, sobrou o castigo de pagar uma tarifa mais alta pela energia que não consumiu!
O impacto desses aumentos sobre as taxas de inflação deixará o Banco Central com margem extremamente restrita para cumprir a meta. Não pode alterá-la porque isso afetaria a credibilidade do Banco e praticamente terminaria o sistema de metas inflacionárias. Para garantir o seu cumprimento, muito provavelmente terá que abandonar por algum tempo o objetivo de reduzir as taxas de juro, o que significa conter o crescimento da economia. Com a taxa de inflação rodando perto de 7% este ano e com a exigência de atingir a apertada meta fixada para 2002, não haverá espaço para a redução dos juros. A taxa básica (SELIC) vai ser definida pela necessidade de fazer os demais preços da economia crescerem abaixo de 3,5%, o que é um objetivo extremamente ambicioso.
Nessas circunstâncias, parece que o Banco Central não terá alternativa a não ser a execução de uma política monetária austera que imporá, certamente, um ritmo mais lento ao crescimento da economia em 2002. É uma perspectiva muito pouco animadora para o setor produtivo do país ter que conformar-se com mais um ano de altas taxas de juro. E, para a sociedade brasileira como um todo, restará a expectativa de um crescimento pífio do PIB, confirmando a suspeita de que não verá cumprir-se a meta mais importante desse segundo mandato do presidente, sintetizada na promessa: ''Quem venceu a inflação, acabará com o desemprego''...


- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo PPB-SP
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