Miguel Ignatios
Com a eleição do presidente De la Rúa, bem como a dos futuros chefes de Estado do Uruguai e do Chile, a tendência do Mercosul para os próximos anos será a de entrar em nova rodada de negociações entre os atuais parceiros para definir o futuro dessa zona de integração. O resultado de tais consultas poderá apressar a adesão da Comunidade Andina ao bloco. Em outras palavras, passado o período quixotesco do ex-ministro argentino da Fazenda, Domingo Cavallo, e do ex-presidente do Banco Central do Brasil, Gustavo Franco, a tendência é que o diálogo, mais maduro e produtivo, venha a substituir o clima de confronto diplomático.
É óbvio que os planos de estabilização adotados aqui e na Argentina tiveram alguns méritos. Apesar disso, contudo, ambos não souberam evitar a ‘‘armadilha’’ do radicalismo. ‘‘Amarrar’’ a moeda argentina a uma paridade fictícia com o dólar e a brasileira ao câmbio excessivamente sobrevalorizado foram medidas ousadas, que produziram efeitos positivos durante os primeiros anos, mas obviamente insustentáveis no longo prazo.
Oportunidades para mudar a relação entre as duas moedas não faltaram. Houve, no segundo semestre de 1997, a crise asiática, uma excelente ocasião, grosseiramente subestimada por brasileiros e argentinos. Em agosto de 1998, veio a moratória russa, igualmente ignorada pelas autoridades de cá e de lá. As consequências desse duplo desatino não demoraram muito e foram devastadoras: o real teve de ser bruscamente desvalorizado em janeiro deste ano. Passado o primeiro impacto, esperava-se a adoção de medida semelhante por parte dos nossos vizinhos. A resposta deles foi ameaçar com a dolarização total da economia.
Obviamente, os superávits comerciais que durante cinco anos fizeram a felicidade dos exportadores argentinos despencaram. E a esperada reação das exportações brasileiras (não só para lá como para o resto do mundo) não aconteceu na intensidade desejada. Um merecido castigo para a esquizofrênica teimosia da dupla Gustavo Franco e Domingo Cavallo.
Certo da vitória que as pesquisas lhe asseguravam, o que acabou se confirmando nas urnas, a equipe de transição de De la Rúa enviou um recado ao ministro Malan: é preciso adotar uma moeda única para o Mercosul. A resposta brasileira também veio rápida: tal medida não é para já. Portanto, ao que tudo indica, a Argentina deverá enfrentar nos próximos meses turbulência semelhante à vivida por nós após a desvalorização do real. É o efeito Orloff ao contrário!
A posição defendida pelo governo Menem no Mercosul lembra muito a adotada por parte dos britânicos, contrários, no início da década de 70, à entrada do Grã-Bretanha no então Mercado Comum Europeu. O argumento era o de que, com a europeização, o nível de vida na ‘‘ilha’’ cairia bastante. Felizmente, o bom senso prevaleceu e por estreita margem os defensores da adesão à Comunidade Européia acabaram vencendo o plebiscito.
Os cidadãos britânicos perceberam que a questão vital não era a queda do nível de vida, na época acima da média européia, mas o risco de a economia britânica entrar num processo gradativo de defasagem e posterior sucateamento tecnológico.
Vamos, portanto, aguardar a posse de De la Rúa e a consequente retomada do diálogo entre o Brasil e a Argentina para superar as eventuais divergências pendentes. Todos nós, brasileiros, argentinos, uruguaios, paraguaios e chilenos, só temos a ganhar com isso.

mockup