Há poucos dias tive a oportunidade de, em Cascavel, pronunciar a palestra de encerramento da XVI Reunião do Fórum Permanente de prefeitos de cidades do Mercosul, sob o tema ‘‘Mercados e Globalização’’. Dessa palestra, gostaria de destacar um tópico, o do impacto da política de telecomunicações no âmbito do Mercosul.
O Mercosul é uma das iniciativas mais fecundas deste final de século. No contexto de um mundo marcado pelo fenômeno da globalização, a formação de blocos regionais é um movimento cada vez mais abrangente, marcado pela busca de uma maior escala de produção. A integração comercial entre os países do Cone Sul, que surgiu como sobreproduto de uma política de ‘‘abertura pela abertura’’, de traços indefinidos, foi evoluindo ao longo do tempo para a construção de uma agenda mais positiva, especialmente frente à necessidade de buscarem formas eficazes para a superação da persistente crise econômica dos anos 80.
Os investimentos que o governo brasileiro vem fazendo na área das telecomunicações não apenas visam ao sucesso do processo das privatizações, mas constituem passo fundamental para a consolidação da democracia e da cidadania em nosso país, além de ser elemento de primeira linha para a criação de uma identidade entre os países do Mercosul e, por que não, da América Latina. A interligação através das redes de fibras ópticas, por exemplo, é um investimento dos mais importantes para que as comunicações se realizem de forma eficiente, rápida e barata. A implantação dessa rede, aliada a equipamentos de última geração operando com tecnologia digital, irá permitir uma formidável ampliação da capacidade de comunicação, não apenas entre as pessoas, através da telefonia celular e convencional, como pela comunicação de dados.
Num mundo que se torna cada vez mais encurtado pela revolução dos transportes e das comunicações, a exigência maior é de flexibilidade e capacidade de transmissão. Cada vez mais aumenta a demanda pelos serviços multimídia, envolvendo transmissão de som, imagem e textos de forma interativa e em tempo real, com maior velocidade. A interligação por redes de fibras ópticas no âmbito do Mercosul permitirá que nossos países se integrem definitivamente em todos os aspectos, desde os mais simples atos do cotidiano até a interligação nas finanças, medicina, educação, arte e cultura. Isto quer dizer que nossos países, nossas economias e nossos povos estarão unidos por uma rede de comunicações de altíssima eficiência e velocidade, superando barreiras geográficas culturais.
Quando se reflete sobre a importância das telecomunicações no âmbito do Mercosul não podemos permanecer na consideração apenas das questões econômicas, mas é preciso inseri-las no contexto mais amplo de um processo de integração que possui raízes éticas e morais, uma vez que seu objetivo deve ser o do desenvolvimento com justiça social. Uma mais efetiva integração entre nossos países através de comunicações rápidas e eficientes é uma das melhores barreiras contra o despotismo, o autoritarismo e a dominação de oligarquias hegemônicas, uma vez que tais vícios somente podem medrar aonde se consegue manter o isolamento e a ignorância. Como exercer a censura num mundo ‘‘plugado’’ na Internet? Como utilizar a ignorância quando os meios de comunicação transportam todas as informações do mundo, em tempo real, para dentro de cada lar? É nesse sentido que investir nas telecomunicações é garantir um dos melhores antídotos contra as tentações autoritárias que, de tempos em tempos, assombram nossos países. Não podemos esquecer que, a partir do momento em que as telecomunicações encolhem o mundo, fica mais patente que ‘‘todas as nossas contradições... têm causas universais e efeitos universais, (e que) uma criança que (hoje ainda) chora de fome em um quarto qualquer de qualquer povo põe em questão toda a história do mundo’’ (M Nicolaus).

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