Mercosul ameaçado - Editorial
Mercosul ameaçado
Durante milênios, os seres humanos exercitaram a arte da destruição em suas relações interpessoais e internacionais. A lei da força era mais simples e prevaleceu ao longo dos tempos. O mais forte dominava, era o chefe, pelo menos até o dia em que surgisse outro mais poderoso. Assim também acontecia na medida em que as pessoas foram ampliando a vida comunitária: os grupos mais fortes dominavam os demais. Esforços concretos visando alterar isto e criar uma convivência diferente entre os povos, principalmente, só começaram a dar resultado em anos recentes. Depois da última guerra mundial, que provocou a morte de cerca de 50 milhões de pessoas e com o surgimento das armas atômicas, cresceu a percepção sobre a necessidade de se substituir o confronto e a lei do mais forte pelo entendimento.
Como é uma prática recente diante dos milênios de História humana surgem sempre dificuldades para dirimir conflitos e resolver interesses. O que está ocorrendo atualmente no âmbito do Mercosul é bem ilustrativo disto. Há muito tempo existe a idéia de uma grande união entre os países do chamado Cone Sul da América, um caminho natural para fortalecer a todos os membros do bloco e dar-lhes inclusive condições de competir com os outros blocos que vêm despontando pelo mundo. E o Mercosul surgiu como corolário de uma longa história de esforços visando a integração comercial entre os países da região. Em certo sentido, algo bem mais produtivo do que a sequência das guerras que marcaram o relacionamento entre Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai no século passado. Todavia, como se pode perceber, este tipo de convivência pacífica, esta tentativa de formar um grande bloco econômico, é um desafio tremendo.
Conciliar interesses de países tão diferentes é, sem dúvida, uma tarefa gigantesca. Não só pela diferença de língua, existe entre os outros membros do grupo uma certa posição de dúvida em relação ao Brasil. Afinal, é territorialmente maior, tem todos os requisitos para se converter em potência no mundo, atingindo o mesmo porte dos grandes que hoje se destacam no Planeta. Até por isto, o Brasil cedeu muito nos entendimentos para a formalização deste bloco econômico. E não há dúvidas que os vizinhos, em especial a Argentina, se beneficiaram bastante nos primeiros tempos do Mercosul. Repentinamente, o Brasil passou a ser o grande mercado consumidor para os países da região, notadamente a Argentina. Era uma situação boa para os parceiros.
A situação mudou. O Brasil, além de tudo, enfrentou sérios problemas econômicos e acabou forçado a modificar sua política cambial, o que produziu efeitos pesados junto aos sócios do bloco. A partir daí, a situação passou a se deteriorar. E não só em relação à Argentina. No Uruguai, a campanha eleitoral também enfoca o Mercosul e já se fala em problemas porque o Brasil é visto como uma espécie de dominador econômico. Não há dúvidas, também, que as questões do bloco vão pesar e muito no pleito presidencial argentino. As medidas agora adotadas pelos platinos, em detrimento de produtos brasileiros, surgem muito mais em função do quadro eleitoral do que de qualquer outra consideração. O que se tem, enfim, é o retorno da política do interesse local, sem se levar em conta que o esforço para criar um bloco do tipo Mercosul implica também em sacrifícios.
A reação brasileira, restringindo quatro centenas de itens argentinos, é uma consequência. Ação e reação, em um clima que começa a se tornar tenso e azedo. O Mercosul faz água. Como intenção vale a pena lutar para preservá-lo. Entretanto, é fora de dúvida que prevalecendo interesses individuais, o risco de que o bloco afunde está cada vez maior.





