Mercantilização do ensino médico
O médico Simão Bacamarte, formado em ciência médica na Europa, ao retornar ao Brasil vai clinicar na pequena cidade de Itaguaí, no Estado do Rio. Personagem de Machado de Assis, no livro "O Alienista", lançado em 1881, se defronta com uma realidade de atraso existencial levando a considerar os habitantes possuidores de claros sinais de loucura. A sua interpretação moderna da psicologia médica aprendida na educação europeia se expressa na notável ficção machadiana da alienação da realidade. Ao final, o choque o levaria a considerar que só ele deveria ficar fora do manicômio.
A lambança do médico Bacamarte ocorreu ao ler dois artigos de autoria dos conceituados médicos Drauzio Varella e Simão Cutait, na "Folha de S.Paulo" (6-1-2018 e 17-1-2018). Aqueles profissionais alertam sobre a farra das escolas médicas que poderão se transformar em um tiro do pé da medicina. E a grande vítima será a população brasileira vítima da imperícia que médicos mal formados poderão cometer no atendimento dos pacientes. Há algum tempo em uma universidade federal de importante Estado brasileiro, professor de importante disciplina médica me dizia da sua preocupação com a qualidade profissional de médicos que estão sendo jogados no mercado de trabalho. A sua preocupação não é isolada, frequenta o cotidiano de muitos médicos brasileiros.
Transcreverei pela sua importância a opinião daqueles dois profissionais. O médico Drauzio Varella, no seu artigo constata: "Somos vice-campeões mundiais em número de faculdades de medicina. Temos 305. A Índia é a primeira colocada com cerca de 400 faculdades, para uma população seis vezes maior do que a nossa. Na China há 150 faculdades para 1,3 bilhão de habitantes; nos Estados Unidos, 131 para 300 milhões. Em 1997, tínhamos 85 escolas médicas. Em 20 anos mais do que triplicamos esse número, graças à explosão das escolas particulares que hoje correspondem a mais de 60% do total, a um custo mensal que varia de R$ 5.000 a R$ 16 mil, por aluno."
Diz mais: "A maior parte das faculdades autorizadas pelo MEC não conta com hospitais-escolas dignas desse nome. A expansão agravou a falta de vagas para a residência médica, que hoje mal atendem metade dos recém-formados. Alunos com preparo deficiente são reprovados nos concursos para residência, fase essencial para o aprendizado clínico. Vivemos um paradoxo: enquanto os melhores alunos investem mais cinco anos na formação, uma legião de despreparados vai atender gente pobre."
O médico Raul Cutait, membro da Academia Nacional de Medicina e professor do Departamento de Cirurgia da Faculdade de Medicina da USP, ratifica: "Medicina não é curso que pode se ensinar apenas com livros e aulas, pelo contrário. É preciso estar à beira do leito do paciente, não só para aprendizado técnico, mas para entender o que é cuidar das pessoas, algo que não é intuitivo, mas que defende de orientação e muitos exemplos."
A sua advertência é irretocável: "Estamos com 305 faculdades de medicina em funcionamento ou autorizadas, sendo que 102 delas foram liberadas a partir de 2013. O argumento de que faltam médicos no Brasil é falacioso, uma vez que em alguns poucos anos estarão se formando ao redor de 30 mil médicos por ano, o que dará uma relação de 14 médicos por 100 mil habitantes, quase o dobro dos EUA e mais do que o dobro da taxa de Japão." Por fim, a indagação de Raul Cutait é carregada de angústia: "Será justo deixar jovens na fase do seu maior idealismo serem enganados por escolas médicas sem competência para formá-los?"
Só agora o governo brasileiro, para impedir a proliferação, decretou o prazo de cinco anos para a abertura de novos cursos de medicina. Infelizmente o estupro no ensino médico já era realidade.
EDSON GRADIA, graduado em odontologia e ex-secretário de Estado no Paraná
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