Mercado não espera dólar abaixo de R$ 3
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sábado, 05 de outubro de 2002
Agência Estado 
Rio A definição do quadro eleitoral hoje deverá reduzir, gradualmente as incertezas da economia, mas ainda assim a cotação do dólar deverá permanecer num patamar em torno ou pouco acima de R$ 3 no médio prazo, na avaliação de economistas e executivos de grandes empresas. Na prática, este novo patamar ajuda a incentivar as exportações, mas, conforme o nível de repasse aos preços, processo dificultado pelo baixo nível da atividade econômica, pode reduzir o poder de compra dos salários.
''Este câmbio dificilmente vai cair abaixo dos R$ 3, porque o financiamento externo está escasso e vai continuar assim por algum tempo'', afirma o coordenador do Grupo de Acompanhamento de Conjuntura (GAC) do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Paulo Levy. O modelo das previsões do Ipea indica cotação de R$ 3,12 no fim do ano. Este ano, o dólar médio mensal já ficou acima de R$ 3,00 em agosto (R$ 3,11) e setembro (R$ 3,34), segundo a Associação Nacional das Instituições de Mercado Aberto (Andima).
O retorno a um patamar próximo de R$ 3, entre o fim deste ano e o início do ano que vem, depois da escalada das últimas semanas, também é esperado pelo presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet), Antônio Corrêa de Lacerda. Teoricamente, analisa, este nível permite equilibrar minimamente a balança de pagamentos e torna competitivas as exportações e a substituição de importações.
O vice-presidente de finanças do McDonald's no Brasil, Eduardo Mortari, afirma que é difícil prever a cotação do dólar, mas informa que o planejamento da empresa prevê R$ 3,20 no fim do ano. ''Continuo acreditando que as altas recentes representam volatilidade, devido ao problema político eleitoral. O câmbio tende a voltar a um patamar realista, independentemente de quem ganhe a eleição'', comentou.
O resultado das eleições presidenciais, segundo os economistas, ajudará a reverter a perspectivas negativas quanto à economia. Para Levy, a incerteza tem movido o câmbio nas últimas semanas. ''Qualquer que seja o eleito vai haver um grau razoável de continuidade e consistência com políticas de ajuste fiscal, câmbio flutuante, perseguição de metas de inflação'', acredita Levy, citando a necessidade de que uma retomada ocorra mais devagar, para impedir que a pressão do câmbio vire inflação ainda mais alta.
A transformação de câmbio alto em inflação é uma das principais preocupações do diretor do Instituto de Estudos do Trabalho e da Sociedade (Iets), André Urani. O economista reconhece que a economia hoje está menos sensível aos impactos inflacionários, comparado ao passado, mas o problema ainda existe. ''Se mantiver este câmbio atual, provavelmente vai haver redução no poder de compra dos salários'', argumenta Urani.
O economista avalia que a perspectiva de um dólar a R$ 3 pode parecer boa, ''pela teoria do 'bode na sala', já que o câmbio tem estado em R$ 3,60''. Mas, na prática, considera um câmbio a R$ 3,00 como ''ruim'', analisa Urani, citando o mercado de trabalho. ''Caso tenha impactos sobre a inflação, os efeitos benéficos vão ser comidos e ficam os maléficos'', argumenta Urani, citando a deterioração do poder de compra e o arrocho salarial.


