MERCADO DE TRABALHO Brasil sofre 'apagão' de mão de obra qualificada
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domingo, 23 de janeiro de 2011
Paula Costa Bonini<br>Reportagem Local 
A falta de mão de obra qualificada, em diversos níveis, é apontada como um dos principais desafios que o governo da presidente Dilma Rousseff (PT) deverá enfrentar. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no mês passado havia cerca de 1,3 milhão de brasileiros desempregados. No entanto, sobram vagas no mercado de trabalho, especialmente em determinadas áreas, como o da construção civil.
O País está vivendo um ''apagão'' de mão de obra qualificada. É o que afirma o engenheiro e vice-presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos de São Paulo (ABRH/SP), Almiro dos Reis Neto. Segundo ele, o crescimento econômico tem sido mais acelerado do que a capacidade que o País tem de produzir talentos.
''É preciso identificar qual o tipo de mão de obra que está faltando e onde a carência é maior. Somente após esse diagnóstico é que se deve apresentar soluções para o problema'', opina Reis Neto. Nesta entrevista, ele aponta os setores mais prejudicados, aborda a vinda de profissionais estrangeiros para o País e dá dicas para o jovem se inserir no mercado de trabalho. ''É preciso aliar teoria e prática'', destaca.
A falta de mão de obra qualificada é apontada como um dos principais desafios do governo Dilma Rousseff, podendo até comprometer a continuidade do crescimento do País. A que o senhor atribui essa escassez de mão de obra?
A escassez não vem de agora. Já vem acontecendo há cerca de três ou quatro anos. O crescimento econômico do País tem sido mais acelerado do que a capacidade de produzir talentos. Estamos vivendo um ''apagão'' de mão de obra. Nesse contexto, há setores que sofrem mais, o que produz alguns desequilíbrios.
E que setores são esses?
Com a exploração do pré-sal e a Copa no Brasil em 2014, os investimentos em infraestrutura estão sendo maiores e os engenheiros, por exemplo, estão em falta. O governo Lula estimulou bastante a construção civil, que também pode ser apontada como uma das áreas que sofre com falta de mão de obra. As áreas de óleo e gás também estão prejudicadas, mas não no mesmo nível. O que se vê é que há setores que sofrem com falta de mão de obra no nível mais baixo da pirâmide e outros no nível médio, técnico e até superior. Essa escassez faz com que aconteça uma guerra por talentos e as empresas ''roubam'' profissionais umas das outras.
Qualificar o próprio quadro de funcionários pode ser uma saída para as empresas?
Sim. O mundo moderno está em constante transformação e uma empresa que não qualifica vai ficando para trás. A necessidade de qualificação é permanente. Qualificar o quadro de funcionários também é uma forma de motivar a equipe. Uma empresa que investe no funcionário consegue reter mais talentos, pois os profissionais se sentem mais valorizados.
A sobra de vagas faz com que o número de profissionais estrangeiros interessados em empregos no Brasil aumente significativamente. Isso pode prejudicar a economia do País?
Houve uma época em que os brasileiros iam para fora do País em busca de oportunidades e hoje a realidade é outra, pois são os estrangeiros que vêm procurar emprego no Brasil. Os associados da ABRH/SP relatam que de fato estão buscando mão de obra no estrangeiro, como nos Estados Unidos, na Europa e mesmo no Peru, na Argentina etc. Ao meu ver, isso não prejudica a economia do País. O que essa realidade cria é um paradoxo, uma vez que há pessoas desempregadas e ao mesmo tempo falta de emprego.
E de que forma o Ministério do Trabalho, dentre outras pastas e segmentos sociais, deve atuar para resolver ou minimizar a questão?
A solução não é a curto prazo. Não se forma um engenheiro em seis meses, um ano. O governo precisa identificar qual o tipo de mão de obra que está faltando e onde a carência é maior. Poucos governos fazem isso. Somente após esse diagnóstico é que se deve apresenta as soluções plausíveis para não ficar apresentando soluções que não resolvem nada.
Por que o governo não faz esse trabalho?
Porque é complexo. No Brasil, os Estados apresentam recursos e vocações muito diferentes. Cada realidade precisa de um tipo de mão de obra. Os prefeitos não devem esperar o governo do Estado tomar alguma atitude. A região deve se articular, concretizar parcerias e capacitar a mão de obra necessária para o local.
Qual o melhor caminho para o jovem se qualificar em busca de uma vaga no mercado de trabalho?
Volto a dizer que a carência de mão de obra não é linear, não sendo igual em todos os setores e faixas etárias. A questão do desemprego é maior entre os jovens e as pessoas de mais idade. A falta de experiência acaba prejudicando o jovem. Por isso, eu aconselho que o jovem apresente um misto de teoria e prática. Ele deve buscar bons diplomas, mas também deve fazer estágios mesmo que inicialmente não receba nada para isso. Essa experiência vai ajudar muito. Outra sugestão é aprender inglês, pois quem não fala inglês fica nitidamente para trás. E para quem quer ir ainda mais longe eu aconselho buscar uma experiência no estrangeiro. A vivência internacional vai fazer toda a diferença.


