No início deste ano havia no Brasil mais de 2 milhões de pessoas inscritas no Sistema Nacional de Empregos (Sine), estavam disponíveis 800 mil vagas, mas menos de 384 mil foram preenchidas. No Paraná, apenas 22% dos inscritos conseguiram emprego. O problema é mais grave do se supõe, já que existem vagas, trabalhadores interessados, mas não se consegue empregá-los. Laércio Rodrigues de Oliveira, mestre em Economia pela PUC/SP e delegado do Conselho Regional de Economia, falou à FOLHA sobre as mudanças, exigências e novas perspectivas do mercado de trabalho.

As escolas e os cursos profissionalizantes não estão capacitando os trabalhadores?
O ensino não está suprindo a necessidade, o mercado hoje exige uma escolaridade maior. Dados do IBGE de 2006 mostram que mais de 50% da população brasileira não têm o ensino médio completo. Outro aspecto é que a abertura econômica brasileira exige um tipo de trabalhador mais qualificado que não estamos conseguindo formar.

O governo tem alguns programas, inclusive com verbas do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), para qualificação...
Ainda é pouco, há uma demanda muito alta por qualificação. E existem problemas na distribuição desses recursos. No governo Lula quem está fazendo a qualificação dos trabalhadores são os sindicatos, centrais sindicais, dando uma espécie de reciclagem para quem fica desempregado, mas é um oferta pequena. Na própria estrutura Senac/Senai o número de vagas é insuficiente. Outro aspecto é que essas entidades, com exceção dos cursos oferecidos por meio do FAT, que são gratuitos, cobram. Muitas vezes as pessoas estão desempregadas, não têm dinheiro para pagar transporte e alimentação todo dia. Quem consegue fazer essa qualificação é uma minoria.

O que aconteceu no mercado de trabalho com a abertura comercial?
No início dos anos 90 houve uma perda de 3 milhões de vagas. Foram 10 anos para recuperar o índice de empregos. Porém, não é o mesmo trabalhador. Foi contratado quem tem escolaridade. Os que não têm foram para a informalidade. Dados do Ministério do Trabalho mostram que há no país mais de 100 milhões de pessoas consideradas economicamente ativas (acima de 17 anos), apenas 30% delas têm emprego formal. O Paraná tem 4 milhões de pessoas economicamente ativas e apenas 39% têm carteira assinada. Em Londrina, 217 mil compõem a população economicamente ativa, 97 mil têm emprego formal (45%).

A médio prazo o que o trabalhador pode fazer para se inserir no mercado formal?
Primeiro, todas as pessoas têm de se responsabilizar pela divulgação de informações para os trabalhadores. Porque o problema maior é a falta de informação para o jovem, principalmente da periferia, que chega aos 16 anos e não sabe o que vai fazer. Existe a necessidade de democratizar as informações. Essa é a parte da sociedade. O estado precisa criar mais oportunidade de qualificação.

Qual a tendência do mercado de trabalho?
A tendência é uma prestação de serviço sem vínculo empregatício. Acredito que o emprego formal será para menos de 50% da população. O restante terá de trabalhar por conta própria, e precisará se qualificar para prestar serviço até para as empresas que tenham empregos formais.

No Brasil, onde a oferta é pouca, como o trabalhador irá se qualificar?
É um gargalo do problema social brasileiro. Como incluir essa pessoa no sistema produtivo se ela não tem os requisitos básicos? Acredito que esse trabalhador vai conseguir sobreviver no mercado informal. É um nó no nosso sistema que está sendo difícil de resolver no curto prazo. Acredito que tenhamos de eleger prioridades, investir mais na criança e deixar o adulto, que de alguma forma já está sobrevivendo.

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