MERCADO DE ETANOL - 'Brasil se vende mal'
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 13 de dezembro de 2007
Fábio Cavazotti<br>Reportagem Local 
A produtividade do etanol da cana-de-açúcar é imbatível; o crescimento da demanda global por combustíveis renováveis é mais que seguro; e o Brasil, que ocupa lugar de destaque nesse mercado, ainda se vende muito mal mundo afora. Esse é o cenário traçado pela advogada norte-americana Nathalie Hofmann, presidente da ''California Renewable Energies'' - empresa particular que está instalando a primeira usina de álcool nos EUA a partir da cana. Em novembro, a empresa fez o plantio da lavoura pioneira. O etanol produzido atualmente nos EUA tem o milho como matéria-prima. Nathalie concedeu entrevista exclusiva à FOLHA em recente visita ao Brasil.
O etanol vai formar um mercado global, como crê o governo brasileiro?
Concordo plenamente com esse conceito de tornar o álcool uma commoditie mundial. É primordial para nós, nos EUA, ter mais e mais independência dos países que produzem petróleo. Por exemplo, importamos muito petróleo de Hugo Chávez, e vocês aqui no Brasil sabem melhor que qualquer outro país que ele é muito imprevisível. Os EUA não podem depender somente dele e de outros países instáveis, como os do Oriente Médio. E também pela questão de meio ambiente, de efeito estufa e tudo mais, o mercado mundial de álcool vai crescer muito.
Alguns bancos de investimento já falam num mercado de pelo menos US$ 50 bi anuais...
Confesso que não acompanhei esse dado, mas o mundo está vendo as populações crescerem muito e o automóvel está sendo introduzido pela primeira vez para milhões de pessoas na China e na Índia. Acho que U$ 50 bilhões é muito pouco para o mercado que o álcool pode ter.
Como vê a atuação do Brasil?
Faço negócios no Brasil há mais de 25 anos e minha velha reclamação é que o País tem uma política de não gastar dinheiro em divulgação nos EUA, então, ele se vende mal. Por causa disso, as únicas notícias que chegaram no passado eram sobre violência. Nos EUA, todas as grandes companhias, mesmo as mais admiradas como GM, Google, Apple, têm que gastar para se divulgar. Agora que o Brasil está sendo bem visto por ter reduzido a dependência do petróleo nos últimos 30 anos começam a aparecer forças que não querem que a cana seja uma matéria-prima mundial. Então, meu conselho é que o Brasil aproveite esse momento e invista em relações públicas.
Que forças são essas forças? A indústria petrolífera?
Não vou dizer, mas você pode imaginar quais são as companhias. E tem professores também que não gostam de álcool, que escrevem qualquer artigo contra, começam com essas histórias sobre escravidão, destruição da Amazônia, do Pantanal. Na minha opinião, o Brasil tem que repensar essa política (de divulgação).
A importação de etanol nos EUA sofre uma taxação superior ao petróleo de Chávez, e é bastante criticada...
Primeiro, nunca vi isso ser dito pelo governo brasileiro. Além disso, gostaria de dizer que o Brasl protegeu o álcool durante muitos anos. Lembro-me que a taxa para entrar no Brasil foi de 20% até recentemente, mas os brasileiros esquecem disso. Quando você começa uma nova indústria, qualquer país tem que proteger. Agora, nós (EUA) tivemos que estabelecer nossa indústria de álcool e também fizemos isso.
A taxação poderá ser revista? Quando?
Acho que esse não é o momento certo. Em 2008 e 2009 isso não vai acontecer, porque são anos de eleições presidenciais, aí nenhum candidato vai fazer algo contra o álcool (norte-americano), na minha opinião. Acho que o próximo ano possível é 2010. A Lei que está em vigor com essa tarifa acaba em 2010, então acho que o Brasil deve estar pronto para fazer uma política contra a tarifa a partir desse período.


