Quase impossível imaginar como o País amanhecerá a cada novo dia. Quem disser que sabe, estará mentindo. Desde a semana passada, os brasileiros vivem a expectativa de mudanças radicais na economia. O que não ia muito bem, ganhou contornos ainda mais preocupantes.
Estão todos, devedores e credores, obrigados a refazer as contas e adiar projetos. Com estonteante velocidade, a gangorra da economia tem levado os brasileiros a picos de euforia - como aconteceu na sexta-feira, quando o mercado limitou o câmbio flutuante em R$ 1,50.
Ou a momentos de angústia e depressão, com quedas vertiginosas das Bolsas ou subida do dólar, passando de R$ 1,60. Caberia ao governo explicar, dar o rumo, dizer qual o tom, acalmar o mercado interno. Mas nem o presidente, nem seus ministros, nem assessores graduados cravam hoje um palpite no futuro do País.
Todos torcem. Enquanto o mercado externo - especialmente os credores, que não são poucos - ditam as regras, contribuintes de todos os gêneros, classes e credos rezam para que o Brasil reaja. E que o mundo não acabe, pelo menos dessa vez.
Fernando Henrique e sua equipe econômica fizeram trincheira numa política fadada ao fracasso. Muitos alertaram. Dentro do governo, ministros como José Serra cansaram de avisar. Fora do governo, políticos e empresários foram repetitivos ao disparar alarmes em direção aos economistas oficiais.
O governo insistiu, teimou e agora faz o que menos interessa: tenta identificar os responsáveis por seus sucessivos erros. A culpa que já foi do chuchu e do quiabo comunista - bodes expiatórios no fim dos anos 70, quando a inflação atingiu índices preocupantes - agora é dos políticos que não ajudam o presidente em sua administração.
Estamos entre Itamar Franco e os parlamentares que não aprovaram a cobrança de contribuição dos servidores públicos inativos. Assessores do presidente apontam o governador de Minas Gerais, Itamar Franco, como a causa da guinada de 360 graus na política econômica do governo.
Mas Itamar, pelo jeito, apenas acionou a bomba. O economista norte-americano Rudiger Dornbusch, crítico feroz do governo Fernando Henrique, acha que o presidente errou cumulativamente. Há quem concorde, e quem discorde de Dornbusch.
De uma forma ou de outra, o melhor é jogar para o futuro. Hoje, a Câmara apreciará, pela quinta vez, o projeto que estabelece cobrança da contribuição previdenciária dos servidores inativos. Em dezembro último, o governo perdeu, caracterizando, para nossos credores, falta de comando político.
Por isso, a aprovação do projeto é questão de honra. E está aí uma das coisas que o governo sabe: a derrota representou R$ 4,8 bilhões a menos no esforço fiscal de R$ 28 bilhões. Essa economia é o principal compromisso assumido pelo governo com o Fundo Monetário Internacional.
Na defesa da Medida Provisória, que vai taxar milhares de aposentados livres da contribuição, Fernando Henrique garante que a providência será a salvação da lavoura. Depois dela, os juros vão cair, as ofertas de emprego vão crescer, os programas sociais receberão mais recursos. Quem sabe, decrete também o fim dessa insuportável ciclotimia?

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