Mentindo com estatísticas - J. Roberto Whitaker Penteado
PUBLICAÇÃO
sábado, 11 de abril de 1998
J. Roberto Whitaker Penteado 
O mundo está dividido entre as pessoas boas e as pessoas más. E são as pessoas boas que estabelecem a divisão.
Quando ouvi esta frase pela primeira vez, não percebi, de imediato, o sinistro sarcasmo da proposta, que até parece - à primeira vista, ou audição - bastante razoável. Aí você se dá conta do sofisma: qualquer pessoa que estabeleça uma divisão da humanidade de forma tão abrangente vai colocar a si própria entre as pessoas boas. Não importa quem seja: Saddan Hussein, Sergio Naya ou o Papa...
Acho que idéias assim, malformuladas, alinhavadas de modo apressado ou - até mesmo, às vezes - mal-intencionadas, representam um grande perigo para a sociedade. Em especial para nós, brasileiros, a quem se ensina uma porção de coisas, nas escolas, menos a pensar criticamente. Que saudades da literatura infantil de Monteiro Lobato!
Acabo de ler, por exemplo, na última página da revista Veja (que o corporativismo dos colegas retirou do domínio público, a que se destinava), assinado por Roberto Pompeu de Toledo, um ensaio contra a legalização do jogo no país. Claro que as pessoas - incluindo os jornalistas - têm todo o direito de ser contra ou a favor do que quer que seja. Mas os jornalistas, diferentemente das outras pessoas, têm um compromisso com a verdade que passa pela tentativa de análise objetiva e do cuidado com o uso de adjetivos e estatísticas. Pesa mil toneladas, por exemplo, o título do artigo: A ameaça do projeto Sergio Naya de país. Eu sou a favor da legalização do jogo e conheço muitas pessoas perfeitamente honestas que têm a mesma opinião. Mas RPT consegue demonizar o tema desde a apresentação.
Tentando provar estatisticamente que a legalização do jogo não traz benefícios, o articulista esgrime dados absolutamente questionáveis como de que, na população em geral, jogadores compulsivos são 1% e, nas áreas do jogo livre, 5%. (Uma analogia: há mais pescadores perto do mar do que na população em geral) Nas áreas em que foram implantados os cassinos a criminalidade aumentou em 6,7% (o aumento é pequeno, se considerarmos que aquelas áreas eram quase desertas, antes). Em Atlantic City, 50% dos restaurantes fecharam, depois que os cassinos foram implantados, porque os cassinos cobram mais barato. (E daí? Efeito da livre concorrência, que nossos jornalistas interpretam, com frequência, como coisa indesejável).
Mas não é privilégio dos profissionais patrícios essa leveza no trato com números e com relações espúrias de causa e efeito, perante um público pouco preparado para interpretá-los. Na mesma semana, uma revista internacional - a Time - escreve, muito escandalizada, sobre os meninos que fuzilaram colegas de escola e uma professora no estado de Arkansas. A revista dá destaque a duas observações inacreditavelmente marotas. No índice, sob o título, Dois garotos e suas armas, o comentário: Em todo o país, os pais estão se perguntando de que forma poderão preservar a inocência dos seus próprios filhos. No corpo do artigo, como intertítulo, a observação não-assinada: Essas são crianças frias, cruéis e malignas e não me importo com as consequencias do que estou dizendo.
De novo, é quase certo que a sabedoria convencional (leia-se também maioria silenciosa ou as pessoas boas) vai aprovar tais bobagens, sem questionamento. Mas, os garotos-pistoleiros do Arkansas tinham 11 e 13 anos, não se tratando, portanto, de anjinhos, em qualquer lugar do mundo. Depois, a maioria dos pais, em todo o mundo, não estão preocupados em preservar a inocência dos filhos, mas com seus próprios assuntos. Quando não agem contra os filhos, como mostram impressionantes estatísticas de maus-tratos infantis, sobretudo nos EUA. Os 4 atentados nas escolas, em 1996 e 97 são ínfimos, se comparados com o número de vítimas da brutalidade paterna.
A segunda frase é própria dos que receitam a solução simplista da pena de morte - inclusive para crianças - para resolver problemas de criminalidade. Em momento algum a Time levantou a real questão - que The Economist, lembrou na mesma semana: os crimes com arma de fogo são quase 100 vezes mais frequentes nos EUA do que na Inglaterra porque, lá, rifles e revólveres são vendidos livremente, em especial nos estados do Sul. O verdadeiro arsenal, que estava em poder dos dois moleques do Arkansas, pode ser adquirido livremente, no comércio, por qualquer pessoa.


