Mensagens de Páscoa
Mensagens de Páscoa me têm chegado através dessa sétima maravilha que habita meu computador: o correio eletrônico. Nelas aparece a força do amor universal que os gregos chamavam de ágape. Ao mesmo tempo, parece haver nessas saudações uma vontade de refletir sobre a transcendência que nos ultrapassa. Afinal, qual ser humano não busca dentro de si a compreensão de questões fundamentais, as mesmas que originaram as religiões e as filosofias, esses fragmentos que parecem ser estilhaços de um só conhecimento primordial perdido em alguma remota civilização antiga?
Onde estaria esta civilização? Alguns fazem alusão a Atlântida, continente perdido, submerso no mar por um cataclismo em tempos imemoriais. E se a Atlântida é considerada como lenda, Platão consegue descrevê-la com minúcias em duas de suas obras intituladas Crítias e Timeu, instigantes relatos que serviram para povoar a imaginação de quantos os leram. Naquela pátria de iniciados, teria tido origem o conhecimento que depois se dispersou, adquiriu novas formas e é reivindicado por cada religião como verdade única.
Mas além do sentido místico de religare (ligar o homem a Deus), foi através das religiões que no passado os homens acabaram por desenvolver sistemas que lhes permitiram sobreviver e criar sua descendência. Portanto, as religiões são o sistema mais antigo de proteção social que se conhece. Delas derivaram os códigos que orientavam sobre o que comer, a quem desposar, que tipo de comportamento sexual era permitido, além de controlar cuidadosamente as atividades e comportamentos femininos.
Portanto, as religiões constituíram os mais primitivos sistemas culturais de que se tem notícia, voltados para a replicação de genes e a criação dos filhos. Aliás, tanto cultura quanto culto vêm da palavra latina cultos, que quer dizer adoração aos deuses ou a um ser supremo.
Recorde-se ainda que as religiões geraram códigos morais e de ética que se transformaram em normas jurídicas. E ao criar códigos de comportamento (leis ou ética), e estabelecer uma imagem compartilhada da realidade, as religiões oferecem às pessoas até hoje confiança e esperança. A esperança, sobretudo, baseia-se na crença de uma outra vida e isso costuma dar sentido e direção à existência nesse mundo tornando-a mais suportável.
O que de nós deve sobreviver é descrito de modo diferente por cada religião e livros sagrados determinam valores, comportamentos, costumes, punições, fazem a distinção entre bem e mal. Além do mais, cada religião é expressa por signos e símbolos e vertida na arte, na decoração, na arquitetura, na música, nos gestos, nos sons e até no silêncio.
Exemplificando, no hinduísmo, nome dado no século XIX ao conjunto de religiões existentes na Índia, o culto ou puja envolve imagens (murtis) e orações (mantras, sons vibratórios que sintetizam a divindade). O Om ou Aum é o som mais sagrado, é a semente de todos os mantras, sendo que o 3 representa a trindade dos deuses da criação, da preservação e da destruição (Brahma, Vishnu e Shiva) e o O é o silêncio de alcançar Deus. Existem ainda os iantras, diagramas do universo e uma das orações dos Upanixades resume a busca pelo moksha, que significa a libertação do samsara ou ciclo do renascimento: Do irreal, leva-me ao real; da escuridão, leva-me à luz; da morte leva-me à imortalidade.
Não há dúvida sobre o quanto as religiões são importantes para a humanidade. Entretanto, é preciso lembrar que existiram outros efeitos que deveriam ser recordados para não se repetirem. É que muitas religiões, ao reivindicarem o monopólio da verdade e ao sobreporem o poder político ao espiritual, geraram o fanatismo, a ignorância e a superstição, o que por sua vez conduziu a conflitos sangrentos, à intolerância e à intransigência. Por isso, é preciso que se esteja sempre atento ao paradoxo das religiões: elas podem trazer tanto desgraças e incompreensões quanto conforto e elevação.
Nesta Páscoa, além da idéia da redenção contida no ápice das comemorações cristãs, gostaria de recordar uma das mais impressionantes passagens narradas pelo Novo Testamento, e que nos reverte simultaneamente à visão de uma das nossas características humanas e ao traço divino impresso em nossa alma. Refiro-me à traição de Pedro, seu arrependimento e o perdão dado por Jesus.
Disse Pedro: Senhor, estou pronto a ir contigo, tanto para a prisão, como para a morte. Mas Jesus lhe disse: Afirmo-te, Pedro, que hoje negarás três vezes que me conheces, antes que o galo cante. E assim sucedeu segundo os evangelistas. Três vezes Pedro negou que conhecia Jesus. Da última vez, estando ainda a falar, o galo cantou. Então Pedro, saindo dali, chorou amargamente.
Eis aí a traição e a covardia estampadas na fragilidade humana. E quantos de nós não traímos a nós mesmos, aos ideais mais caros, aos desejos mais sublimes por nos faltar coragem para realizá-los?
Mais que a fraqueza dos homens, porém, ressalta da narrativa bíblica a grandeza da confiança e do perdão dados por Jesus a Pedro mesmo antes que este o traísse, conforme foi narrado pelo evangelista Lucas: Simão, Simão, eis que Satanás vos reclama para vos peneirar como trigo. Eu, porém, roguei por ti para que tua fé não desfaleça; tu, pois, quando te converteres, fortalece teus irmãos.
Essa faculdade de perdoar que também possuímos juntamente com a capacidade de confiar e de crer, é uma das demonstrações da centelha divina que nos permite prosseguir como seres contraditórios e passageiros em busca de redenção, que em outras religiões como o hinduísmo, chama-se moksha.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é escritora e professora universitária em Londrina
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