Menos um a se explicar
A decisão do PT gaúcho de trocar o governador Olívio Dutra pelo prefeito de Porto Alegre, Tarso Genro, para concorrer em outubro mostra que o partido de Luiz Inácio Lula da Silva começa a pensar mais em perspectiva de poder. Entre disputar a reeleição em outubro com um governador que passaria a campanha respondendo sobre o jogo do bicho, os petistas gaúchos preferiram alguém que ocupa pela segunda vez a prefeitura do Estado e nunca foi objeto de suspeitas.
Grosso modo, é possível afirmar que o PT fez o mesmo que o PFL em 1994. Trocou uma perspectiva de problema por algo mais seguro. Em 94, o PFL substituiu o então senador Guilherme Palmeira (PFL-AL) por Marco Maciel (PFL-PE) na chapa de Fernando Henrique Cardoso. Na época, Palmeira foi objeto de reportagens que tentavam envolvê-lo com usineiros alagoanos.
A diferença básica e crucial entre as duas legendas é a de que o PFL decidiu a troca num hotel em São Paulo, ouvindo meia dúzia de pessoas. O PT substituiu seu candidato a governador com o voto de seus filiados. É sinal de democracia interna e até maturidade. Não teve medo de expor Olívio. Preferiu preservar as imagens do partido e do próprio governo do Rio Grande do Sul.
Os petistas gaúchos ganharam o direito de usar o slogan continuidade sem continuísmo que, no plano nacional, vale para o candidato José Serra (PSDB). Isso sem contar que, na visão do povo dos pampas, Tarso é considerado muito mais palatável e moderado do que Olívio Dutra.
Os adversários do PT apressam-se em colocar o resultado da prévia como uma dança do facão em que os petistas acertaram o próprio pé. Afirmam que o PT rejeitou seu governo e tirou discurso no plano nacional, porque não poderá mais apresentar o governo gaúcho como exemplo. Não é bem assim. Como Serra pode usar o que há de bom na gestão Fernando Henrique Cardoso, Tarso poderá falar das realizações estaduais e propor mudanças.
O horário eleitoral gratuito, pelo menos no Sul, terá menos um candidato a se explicar. No plano dos presidenciáveis, por enquanto, a lista de pendências cresce a cada dia. Até agora, de concreto e recente, há Roseana Sarney (PFL) e seu marido, Jorge Murad, com o show do milhão no escritório da empresa Lunus. E pode vir mais. Muito mais.
DENISE ROTHENBURG é jornalista em Brasília





