A população parece já não sentir abalos diante da criminalidade, que se tornou coisa corriqueira, e no mesmo diapasão situam-se as autoridades. Vozes isoladas falam e denunciam, mas não a ponto de sensibilizar a sociedade e os seus poderes, para uma busca inteligente de solução. Assassinatos acontecem todos os dias, e às vezes mais de uma vez no mesmo dia, mas sábado foi pior: foi o assassinato de um menino, de 15 anos, dentro do Centro Integrado de Atendimento ao Adolescente Infrator (o Ciaadi), cometido por dois outros menores um deles também menino, de 14 anos, e outro de 17. O motivo, sempre o mesmo: acerto de contas relacionadas com drogas, e segundo declaração adicional da promotora de Infância e Juventude, Edina Maria de Paula superlotação da unidade. Este segundo detalhe remete para a responsabilidade do Estado, que permite a promiscuidade e a colocação de rivais num mesmo ambiente. Os atendentes do Ciaadi sabiam do perigo, ou deveriam saber, porque revela-se que o menino que resultou morto vinha jurando de morte aqueles dois. Isto não é novidade nesse ambiente, que não é educandário mas confinamento, propício para os mais inusitados cometimentos, porque os adolescentes que entram ali não têm conceitos de valor acerca da vida e nem parâmetros sobre o tamanho da brutalidade, se decidem cometê-la. O entendimento dominante do Estado e da sociedade é que, a esses menores delinquentes, deve-se aplicar punição. Entenda-se polícia sobre eles, e cadeia, não faltando os que defendem condenações extremas. Mas esses dependentes de drogas são antes de tudo doentes, que devem receber tratamento como tal, e isto é dever do Estado. Tragédia como a que acaba de acontecer no Ciaadi tem todas as características de que pode repetir-se, porque não é acidental mas previsível. Para tão grande problema que tem origem nas misérias sociais e no poderoso negócio das drogas, aparentemente imbatível serão necessárias grande solução, que não passa pelos presídios. Mas é por esse caminho que o poder público e a sociedade insensível, acomodada e cobradora, espera resolver o problema desses miseráveis e não apenas esses meninos, mas toda a legião de marginalizados sociais que derivam para a delinquência. Um problema de governo, cujas políticas públicas não contemplam o desenvolvimento e por extensão não geram empregos, salvadores da maioria das situações; um problema da classe empresarial, que não hesita em desempregar, ela também vítima de pesada carga tributária e inadequada, que desencorajam contratações; um problema da comunidade científica, que enquanto as causas não são atacadas precisa apresentar propostas de solução dos efeitos, porque eles estão aí, manifestados na criminalidade. Os caminhos, que são longos e tortuosos, acenam para o recolhimento desses adolescentes infratores para centros de saúde, educação e inserção social, e não para ambiente com característica prisional; para pontos de trabalho, um dever da sociedade. Alguém precisa dar um passo nesse sentido, esperando-se que ele seja dado pelo Estado e mobilize também as comunidades, porque se o problema afeta a todos, deve ser também uma solução buscada por todos. Falta boa vontade dos governantes, porque eles são sempre passageiros em seus cargos e não pensam soluções, mas apenas paliativos. Uma visita, um discurso, projetos de mais policiamento e de mais presídios. Por conta das causas não-combatidas e dos efeitos já instalados, há que atacar esses males em duas frentes: a da origem e a dos efeitos. Em nenhuma das duas percebe-se indicativos de sábia solução: nem o combate ao tráfico pesado das drogas e, aí sim, a polícia sabe por onde deveria começar nem projetos governamentais de desenvolvimento econômico-social, que resultem na emancipação dos miseráveis, nem programas educacionais de grande intensidade. Em síntese, uma demonstração de incapacidade humana.

mockup