O governo do Paraná decretou nesta semana o fechamento do curso de medicina da Universidade Estadual de Ponta Grossa. As razões alegadas: investimentos elevados e gastos excessivos com o ensino superior. O assunto é polêmico e sem dúvida ainda vai render muita discussão.
O número de médicos, de enfermeiras, de dentistas, de profissionais de saúde enfim, está relacionado com o nível de saúde de uma população? Mais=mais e menos=menos? Ou a equação não é bem essa? Além da quantidade dos profissionais, qual a importância, para a saúde da população, da qualidade dos serviços e da atenção prestada? E das capacidades e competências profissionais? Sem falar sobre o papel dos outros determinantes da saúde como saneamento básico, poder aquisitivo, condições nutricionais e ambientes de trabalho.
Claro que esse tipo de discussão não faz sentido para os diretamente atingidos pela decisão de fechamento do curso. Os interesses imediatos dos alunos e suas famílias, dos dirigentes e professores da universidade atingida, da sociedade ponta-grossense fazem com que as análises girem em torno de outros aspectos da situação criada e que só serão resolvidos com muitas mudanças.
E para tratar disso, de inovações acadêmicas, de mudanças na formação profissional, de transformações dos modelos de atenção à saúde, de humanização do atendimento, de práticas e condutas éticas, de desmercantilização da medicina e muitos outros temas, acontece em Londrina nesses dias o V Congresso Nacional da Rede UNIDA. O tema central do evento neste ano é ''Governos novos, desafios antigos: investindo sempre nos processos de mudança''.
O Paraná tem 164 cursos universitários de graduação na área da saúde, considerando-se as 12 carreiras (medicina, enfermagem, odontologia, farmácia, fisioterapia, biomedicina, educação física, fonoaudiologia, medicina veterinária, nutrição, psicologia e terapia ocupacional). Seis, eram sete até a semana passada, são de medicina. Em todo o País, são 109 cursos médicos. De todas as 12 carreiras, são 1.864 cursos. Somente os estados de SP, RJ e MG têm mais cursos do que o Paraná.
No evento haverá uma intensa troca de experiências no campo da educação dos profissionais de saúde. A polêmica em torno da abertura de novas escolas, e não só médicas, deverá ter seu espaço. Mas também assuntos como as estratégias para a implantação das novas diretrizes curriculares nacionais para os cursos, a duração dos cursos, as políticas de financiamento da saúde no país, a educação à distância e as redes colaborativas, o papel da avaliação, os avanços e desafios da estratégia da saúde da família e muitos outros.
Em relação ao fechamento do curso de medicina da UEPG, os debates nos próximos dias deverão servir para aprofundar a compreensão a respeito desta e de outras problemáticas. Como, por exemplo, o Pró-Saúde (Programa paranaense de estímulo às mudanças nos cursos de medicina, enfermagem, odontologia e farmácia), que precisa ser transformado em realidade. Caso contrário será muito grande a frustração de dezenas de professores, estudantes e de dirigentes universitários e de serviços de saúde que durante dois anos dedicaram-se à formulação da proposta, finalmente elevada à condição de política pública em dezembro de 2002.
As soluções no campo social não são simples, sabemos. Implicam em muita reflexão e estudo. Um bom começo é participar do congresso que contará com 1.200 participantes vindos de todos os estados do País. Vamos juntos encontrar os caminhos para termos mais saúde com melhores médicos, melhores enfermeiras e melhores equipes de saúde.
MARCIO ALMEIDA é médico, professor da Universidade Estadual de Londrina e coordenador nacional da Rede UNIDA

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