Na próxima semana deve ser anunciada uma iniciativa multilateral contra a corrupção, a chamada Sociedade de Governo Aberto (OGP, na sigla em inglês). A ideia é desenvolver uma ferramenta que será supervisionada por um comitê, formado por coalizão de governos e sociedade civil. Brasil e Organização das Nações Unidas ficarão à frente dos trabalhos, de acordo com o Departamento de Estado norte-americano.

A OGP pretende assegurar compromissos concretos para a promoção da transparência, dar mais poder aos cidadãos, lutar contra a corrupção, utilizando inclusive as novas tecnologias e funcionará ao estilo de ''colaboração de múltiplos acionistas''.

O interessante é o momento em que surge a OGP, quando mais um escândalo derruba um ministro do governo Dilma Rousseff. Mês passado a Controladoria Geral da União (CGU) promoveu uma varredura em obras do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) e pela Valec e constatou várias fraudes. Há de tudo: superfaturamento, sobrepreço, precariedade no estado de conservação de equipamentos e até pagamento de salários a funcionários fantasmas. O orçamento das obras investigadas supera a casa dos R$ 3 bilhões.

Na saúde, o Tribunal de Contas da União (TCU) descobriu desvios de recursos para tratamento de pacientes que já morreram. A fraude teria desviado cerca de R$ 14 milhões dos cofres públicos. Além disso, o governo federal conseguiu aprovar no Senado lei que flexibiliza o regime de licitações para as obras da Copa e Olimpíada. Com o novo modelo, a divulgação do orçamento prévio de obras deixa de ser obrigatório, o que pode abrir brechas para irregularidades - justamente o oposto do que prega a OGP.

É claro que há casos em vários níveis institucionais, não é uma exclusividade federal. Parece uma característica inerente ao poder público, por isso qualquer tentativa de quebrar esse círculo é bem-vinda, inclusive com a participação da população. Mas será preciso muito mais do que simples palavras e intenções. Começa com a vontade de combatê-la, acabando com a impunidade de quem a pratica. Resta saber se tudo não passará de discurso.

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