Mas toda essa turbulência tem seu lado positivo a redução do estoque da dívida externa e consequente diminuição nas remessas de juros. ''A médio prazo, o valor das amortizações e dos juros deve cair'', diz Barbosa. A despesa com juros de janeiro a agosto registrou uma queda de 14,5% em relação ao mesmo período de 2001.
É difícil prever os valores de juros e amortizações no ano que vem, principalmente porque muitas empresas não informam imediatamente quando antecipam seus pagamentos. Mas economistas acreditam que a dívida deve manter sua trajetória descendente. ''O BC está prevendo um pagamento de juros ligeiramente mais alto no ano que vem, mas eu acredito que os números devem se manter ou ficar um pouco abaixo'', diz Barbosa.
Para o ex-presidente do BC Carlos Langoni, diretor do Centro de Estudos da Economia Mundial da FGV, a redução no estoque da dívida deve aliviar as pressões sobre o câmbio no ano que vem. A menor necessidade de financiamento externo gera menor volatilidade no câmbio. Se a taxa se estabiliza em um patamar mais baixo, menor o risco de as desvalorizações serem repassadas para os preços, causando inflação.
Outro efeito positivo é sobre a percepção de risco. Com a redução no estoque da dívida, o investidor começa a ter menos dúvidas sobre a capacidade das empresas ou do País de honrar seus compromissos e exige prêmios menores.
''Mas países importadores de capital como o Brasil não podem eliminar completamente a poupança externa enquanto não tiverem outra alternativa'', ressalva Gustavo Loyola, ex-presidente do BC e sócio da Tendências. ''Precisamos importar poupança 'pero no mucho', para não ficarmos vulneráveis a qualquer gripe do mercado financeiro.''
Segundo Langoni, a relação entre serviço da dívida (amortizações e juros) e PIB está na casa dos 90%. ''O índice caiu, mas ainda é muito desconfortável'', diz Langoni, referindo-se a um dos principais indicadores da capacidade de um país honrar seus compromissos externos. ''Só vamos conseguir reduzir a vulnerabilidade externa quando cortarmos esse índice pela metade''.
Países considerados mais seguros para investimentos, como México e Chile, conseguiram reduzir sua relação serviço da dívida exportações para menos de 50%. ''Isso depende muito de políticas de exportação e negociações comerciais'', diz. ''Para escapar da armadilha da vulnerabilidade externa, não adianta só reduzir o numerador (dívida), é necessário aumentar o denominador (exportações).''

mockup