Retas, sinuosas ou em aclive. Londrina guarda memórias na geometria de avenidas. É o caso da Celso Garcia Cid, Rio Branco, Leste-Oeste e Duque de Caxias entre outras.

Alexandre Razgulaeff, geodesista da CTNP (Companhia de Terras Norte do Paraná), foi autor da Planta Parcial de Colonização das Glebas dos Ribeirões Três Bocas, Jacutinga e Vermelho (1930) e da Planta de Londrina (1932). Ia incorporando aos projetos, os eixos, divisas e caminhos pré-existentes. Isso tinha o lado prático de utilizar marcos e limites conhecidos e consagrados. Mas também permitia gravar camadas do tempo e conferir aos planos, ainda que de maneira incipiente, o senso de lugar.

A movimentada avenida Rio Branco era o antigo limite das terras da concessão Dr. João Leite de Paula e Silva. Essa linha reta, de dezenas de quilômetros, seguia até o rio Paranapanema. Já aparece indicada em mapa de concessão de terras devolutas às margens do Paranapanema de 1925 e é reconfirmada na Planta Parcial de Colonização (1930).

Uma diagonal corta "desajeitadamente" o xadrez rígido da Planta Inicial de Londrina (1932). É a Avenida Celso Garcia Cid que continua após a matriz como rua Quintino Bocaiúva. Uma antiga picada, incorporada como Estrada de Autos, no projeto da Companhia Ferroviária São Paulo-Paraná CFSPP (1928-32). Tinha como autor a experiente firma inglesa Macdonald Gibbs & Co. Engineers. Partindo de Jatahy, seguia até o vale do Pirapó. Nesse projeto, ferrovia e estrada de autos iam se entrelaçando, procurando condições favoráveis à implantação de trilhos, estações e "altos" para a localização de patrimônios.

Decretos de concessão de ferrovias e terras devolutas e decretos de colonização definiram as características dos empreendimentos no Norte do Paraná. Daí a possibilidade das Companhias de Colonização trabalharem com equipe de topógrafos de várias origens e níveis de experiência. A semelhança final nos arranjos de parcelamento de lotes rurais e distribuição de patrimônios permitem confirmar essa hipótese.

Voltando às avenidas. De remanescente do projeto ferroviário da Macdonald Gibbs, temos a avenida Leste-Oeste. Com curvas de raio de grande envergadura e declividade de 2%, cruza a cidade de ponta a ponta. O largo canteiro da Leste Oeste existente é o vazio do antigo leito da ferrovia. Foi preservado na década de 80, para uso futuro no transporte de massa sobre trilhos. Vazio como patrimônio.

O Plano de Londrina teve ainda outra ferrovia, praticamente desconhecida, como condicionante do projeto. Era a Estrada de Ferro Central do Paraná EFCP, concessão inicial da Companhia Marcondes de Colonização, Indústria e Comércio em 1922. Foi transferida e ajustada para a Companhia de Terras Norte do Paraná em 1925. O ramal 2 da EFCP transferida, partia da Linha Tronco nas imediações do ribeirão das Marrecas e seguia até o Paranapanema. Esse eixo Norte Sul foi fundamental na implantação de Heimtal (1929) e Londrina (1932). O superbus percorre hoje a longa reta da avenida Duque de Caxias, um antigo ramal ferroviário.

Sobre o conhecimento da existência do projeto do ramal 2 da Estrada de Ferro Central do Paraná, na época, temos duas evidências. A primeira é a grande quantidade de datas vendidas, demarcadas, ao longo desse eixo Norte Sul, rua Cambé, na Planta de Londrina (1932). A segunda evidência é a localização do Hotel Luxemburgo, quase na saída Sul da cidade, longe da Estação Ferroviária da CFSPP. Por que alguém, em 1932, escolheria esse local tão afastado para construir um hotel? Uma ferrovia justificaria a opção.

Este ano marca 92 anos da assinatura do contrato de compra e venda de terras devolutas da Cia Marcondes para a CTNP e 85 anos da Planta de Londrina. Uma nova publicação: "Terras do Norte – Paisagem e Morfologia" revela dezenas de mapas inéditos que permitem novas reflexões sobre a região outrora considerada "talhada no machado".

HUMBERTO YAMAKI é coordenador do Laboratório de Paisagem da Universidade Estadual de Londrina

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