O presidente da Comissão Organizadora do Centenário da Imigração, Kokei Uehara, 80 anos, chegou ao Brasil em 1936, com apenas nove anos de idade. Veio sem os pais, junto com uma irmã e um casal de tios, para se juntar aos outros quatro filhos da família Uehara que já haviam apostado na chance de construir um futuro próspero em terras tupiniquins.

Trabalhou na lavoura de algodão, puxou enxada e contou com o trabalho dos irmãos para cursar a faculdade de Engenharia. Conquistou o diploma e colocou seu nome entre o dos responsáveis de algumas das mais importantes usinas hidrelétricas do mundo, entre elas a de Itaipu, no Brasil, e de Três Gargantas, na China.

Entre um compromisso e outro, na reta final da organização do Imin 100, Uehara, que também é presidente da Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa (Bunkyo), conversou com a reportagem da FOLHA.

Qual é o sentimento do senhor, um imigrante, ao participar das comemorações do Centenário da Imigração Japonesa ao Brasil?
Sou muito agradecido ao trabalho dos velhos imigrantes. Mais de 250 mil japoneses vieram para o Brasil. Noventa e cinco por cento desses já partiram para o céu. Sou um dos últimos. Todo o reconhecimento da sociedade brasileira e do governo brasileiro ao sacrifício e trabalho dos velhos imigrantes japoneses me deixa muito emocionado, chego a perder as palavras...

Qual é o objetivo que vocês querem alcançar com as comemorações?
Mostrar a nossa gratidão aos primeiros imigrantes, que tanto lutaram; agradecer aos brasileiros, que receberam os imigrantes - gente de feição e costumes diferentes - e os fizeram sentirem-se tão bem; incentivar a comunicação entre a comunidade para conservar a cultura japonesa, assim como os descendentes de outros povos precisam preservar sua cultura e, acima de tudo, criar um Brasil multicultural, promovendo uma integração de todos os povos. O que vale é o que temos na nossa alma e na nossa mente.

Atualmente, como são recebidos os brasileiros que emigram para o Japão?
É lógico que há choque de cultura e problemas com as crianças, pois os pais querem ganhar dinheiro e voltar para o Brasil. Na escola, tem aquelas gozações, como eu tive aqui, porque tem cara diferente, não sabe falar o idioma. Mas tudo isso vai passar. São 300 mil brasileiros lá. Já há nisseis riquíssimos e entrando nas melhores faculdades do Japão. Isso é muito bom. Muitos emigrantes brasileiros, atualmente, querem ficar no Japão, construir sua história lá, apesar de muitos irem para voltar. Nós, que imigramos há tantos anos para cá, não tivemos a possibilidade de voltar, pois o Japão entrou em guerra e perdeu.

E se não tivesse acontecido a guerra?
O pessoal ia voltar para o Japão, mas muitos acabariam retornando para o Brasil. A paz é o maior valor deste país.

De todos os momentos dos cinco anos de organização do Imin 100 até aqui, qual foi o mais emocionante para o senhor?
No dia 24 de abril houve a abertura oficial do Ano de Intercâmbio Brasil-Japão, com a presença do imperador, da imperatriz e do primogênito, primeiro na linha de sucessão ao trono japonês. É muito raro reunir os três em um só evento e eu tive que falar em nome da sociedade nipo-brasileira. Sou um simples imigrante e fico sem graça por ter que falar em nome de 1,5 milhão de pessoas perante o imperador.

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