Uma guerra que se espalhou pelos oceanos Atlântico, Pacífico e Índico, pela Europa, Ásia, África, Oriente Médio e costas das Américas do Norte e do Sul, matou 9 milhões de soldados e 10 milhões de civis. A ferida onde jorrou o sangue de tantas etnias virou uma enorme cicatriz que completou 100 anos na semana passada e, por sua grande importância, foi lembrada em todos os continentes. No Brasil, no entanto, a primeira guerra em escala global é quase um assunto estranho, apesar do País ter sido atacado pelos alemães e ter participado em alguma medida dos combates.
Marcelo Monteiro, jornalista gaúcho que fez sucesso com a obra U-507 - O Submarino que afundou o Brasil na Segunda Guerra Mundial, tenta agora jogar luzes na participação brasileira no conflito com a reportagem U-93: A entrada do Brasil na Primeira Guerra Mundial (Edições Besouro Box, 320 páginas, Coleção Front e Verso, prefácio de João Barone), com lançamento nacional marcado para este mês.
Em entrevista exclusiva à FOLHA, Monteiro diz que a Primeira Guerra foi uma lição mal aprendida e que a fragilidade militar do Brasil, evidente entre 1914-1918, voltaria a se repetir duas décadas depois no segundo e último conflito armado global.


Por que a Primeira Guerra Mundial é um acontecimento histórico tão obscuro no imaginário brasileiro?

O brasileiro não tem muito apreço e muito interesse por sua história. Na Segunda Guerra Mundial, por exemplo, entramos no conflito após um episódio muito dramático – semelhante ao que foi Pearl Harbor (ataque aeronaval da Marinha Imperial Japonesa no Havaí que resultou na morte de mais de 2,4 mil militares e que marcou a entrada dos Estados Unidos no conflito) para os americanos: os ataques dos submarinos alemães a navios na costa da Bahia e de Sergipe que resultaram em mais de 600 mortes. A gente como nação simplesmente desconhece este fato. Agora, imagine a Primeira Guerra, de apelo muito menor, principalmente porque faz muito mais tempo e se diluiu na memória coletiva? A explicação para praticamente ignorarmos o conflito também passa por esta questão cultural, da falta de interesse dos brasileiros por sua história.

E nos livros didáticos? O assunto também é tratado superficialmente?
A minha impressão é que o que acontece com o público em geral, acontece também no ambiente escolar. A Segunda Guerra, evento importantíssimo para o qual o Brasil enviou 25 mil soldados, praticamente não é tratado em sala de aula. A Primeira Guerra é tratada mais superficialmente ainda. E isso ocorre em todos os níveis do ensino. Dos primeiros anos do ensino regular até o curso universitário, não existe um momento da nossa vida escolar que a gente consiga ter uma preparação para lidar com o tema.

O centenário é um bom momento para se corrigir este déficit de informação?
Os grandes veículos do planeta estão dedicando generosos espaços a este tema e também nos leva, enquanto cidadãos brasileiros, a despertar para a importância dele que daqui a alguns anos, com uma análise mais ampla, será vista como parte de um conflito único que se funde com a Segunda Guerra, com uma trégua armada de duas décadas. Grandes reportagens de TV, documentários, livros, tudo isso nos ajuda, mesmo tão distantes daquele tempo, a enxergar a importância do evento. É um despertar lento, que o centenário ajuda a acelerar.

Qual é a importância de se estudar e compreender a Primeira Guerra Mundial?
É importante para entendermos muito da nossa cultura de hoje, do nosso posicionamento político e econômico. Tudo isso tem relação direta com as decisões que nós tomamos naquele período. No início da guerra, composto por dois blocos, éramos neutros. De um lado havia o Império Austro-Húngaro e a Alemanha, do outro lado a Inglaterra, a Rússia e a França. E durante a guerra seguimos os passos dos Estados Unidos, que já era a grande potência americana. Eles penderam para o lado do segundo bloco e nós também, o que depois se repetiria na Segunda Guerra. Portanto, não é à toa que temos uma cultura tão parecida com a cultura americana.

Quais fatores foram considerados para o Brasil escolher o seu lado?
A elite política e cultural brasileira tinha uma ligação muito forte com a França, onde muitos iam concluir os estudos. Havia também uma admiração muito grande pela organização da sociedade britânica. Ao mesmo tempo, havia uma dependência econômica dos Estados Unidos, que era uma espécie de irmão mais velho da nossa república, um espelho para um país que vivia ainda as primeiras décadas de democracia.

Havia alguma possibilidade do Brasil ter mantido a neutralidade inicial?
O Brasil foi obrigado a se envolver na guerra. Éramos um país eminentemente exportador de café e cereais, especialmente para o mercado europeu e norte-americano. Não podíamos abrir mão deste negócio, era nossa grande fonte de divisas. E mesmo com o conflito em andamento, mantínhamos comércio com os europeus, em especial com a Inglaterra e a França. Foi quando começou a acontecer os incidentes com os navios brasileiros. No começo de 1917, a Alemanha decidiu fazer um bloqueio naval para tentar impedir a passagem de suprimentos para os inimigos. Não à toa, os navios brasileiros foram atacados. O primeiro foi o navio Paraná, em abril de 1917. Dias depois, o Brasil rompeu relações diplomáticas com a Alemanha. Um mês se passou e outras duas embarcações brasileiras – o Tijuca e o Lapa - foram afundadas pelos alemães. Portanto, foi uma escalada de acontecimentos porque o Brasil não queria abrir mão do seu comércio, por questões econômicas, e a Alemanha insistindo no bloqueio, o que culminou com a declaração de guerra pelo Brasil.

Qual o fato mais emblemático da guerra para os brasileiros da época?

No afundamento do navio Macau, ocorrido no dia 18 de outubro de 1917, dois tripulantes, o comandante Saturnino Furtado de Mendonça e o taifeiro Arlindo Dias dos Santos foram levados para o interior do submarino U-93. E nunca mais foram vistos. Meses depois, o submarino foi afundado. Por décadas, as famílias pressionaram o governo brasileiro por informações sobre o destino deles mas nunca tiveram pistas do que realmente aconteceu. Circularam boatos de que o comandante Mendonça teria atirado contra o comandante do submarino e que, por isso, ele e o taifeiro teriam sido fuzilados. A Alemanha chegou a dizer que eles teriam sido interrogados e libertados em um barco salva vida. Mas não há notícias de que foram encontrados corpos em alto mar ou que algum navio os tenha resgatado. Incrivelmente, poucas semanas atrás, mergulhadores franceses disseram ter encontrados o submarino na costa da França. Se isso se confirmar, abre a possibilidade do governo brasileiro pedir ao governo alemão para que investigue se há algum vestígio de que eles estavam na embarcação quando ela foi abatida.
O fato gerou tal comoção no Brasil que foi decisivo para a declaração de guerra contra a Alemanha uma semana depois.

Como o conflito afetou a política doméstica?


Desde o início da guerra, houve uma grande divisão no País sobre se deveríamos ou não entrar no conflito. A imensa maioria era a favor da opção pela paz. Houve um movimento grevista muito forte à época, inclusive com o registro da primeira greve geral do Brasil em 1917. A declaração de guerra, de alguma forma, tentou coibir este movimento, que começou em São Paulo, chegou ao Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Paraná. O governo declarou algumas medidas de exceção, como o estádio de sítio, instituído alguns dias depois da declaração de guerra.




Ao fim do conflito, o que havíamos aprendido?

A guerra ensinou mas o Brasil não aprendeu. Na primeira guerra, o Brasil não tinha absolutamente nenhuma relevância militar. O que tínhamos de mais forte era uma divisão naval, que inclusive foi enviada para a Europa. Mas a esquadra era tão sucateada, que precisou parar muito durante a viagem, para consertos e também por causa de um epidemia de gripe espanhola. O atraso foi tamanho que os navios chegaram ao destino um dia antes da guerra acabar. Em termos de Exército, não tínhamos força sequer para controlar as nossas fronteiras. Agora imagine mandar uma força para a Europa para lutar? Mesmo assim, 24 oficiais foram enviados à Europa – o mais conhecido deles o tenente José Pessoa Cavalcante, irmão de João Pessoa e sobrinho de Epitácio Pessoa, que posteriormente seria presidente da República. Ele comandou um pelotão francês em 1918. Nossa principal contribuição, foi o envio da missão médica para Paris, onde se criou o hospital brasileiro, considerada uma ação importante na guerra.


A precariedade das nossas forças armadas durante o conflito deixou o governo preocupado com o futuro do País?
Mesmo ficando evidente que estávamos despreparados para um conflito bélico importante, a tradição de diplomacia pacífica fez com negligenciássemos investimentos em defesa. Tanto que chegamos à Segunda Guerra com pouco poderio militar. Acabamos usando materiais fornecidos pelos Estados Unidos.

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