Melindres parlamentares
Melindres
parlamentares
Cláudia Prochet
Da mesma forma que alguns poucos juízes se consideram deuses encarnados, exigindo de pessoas, muitas vezes humildes e iletradas, tratamento reverencial e condizente com sua enorme vaidade, também certos legisladores, infelizmente muitos, ao se revestir do mandato parlamentar, passam a se comportar como donos das câmaras onde exercem a função, tratando o povo, de quem na realidade são mandatários, como um incômodo empecilho da jornada.
Esses senhores, que em campanha invadem a privacidade dos cidadãos através da televisão, rádio, telefone e correspondência, bombardeando-os com programas falaciosos sem pedir licença, são os mesmos que concedem a contragosto o favor de uma audiência às camadas organizadas da sociedade, exigindo comportamento coerente com a solenidade do cargo que ocupam.
Some-se a isso a incoerência de se justificar a rejeição, em Londrina, do projeto que isentaria os aposentados do pagamento das taxas agregadas ao IPTU, com a alegação de que isso diminuiria a receita municipal, no momento em que aprovam verbas para a construtora que concluirá os prédios da Encol e a Cohab executa os mutuários dos conjuntos habitacionais. Será que a classe média merece mais? Ou seu voto tem maior valor?
São esses mesmos senhores que, representando o povo, mostram-se muito ocupados perante os anseios de uma população que, embora leiga, interage diretamente com seus pares em setores como a saúde, a ação social e a educação, tentando de todas as formas pacíficas levar suas necessidades a quem deveria interceder por eles.
E eles deveriam interceder e defender votando os projetos retirados dos foros legítimos para tal, como as Conferências Municipais de Saúde, e não se esquivando e propondo negociações absurdas e de última hora, com representantes sem delegação para tal, do que é inegociável, e com o nítido propósito protelatório. É muito cômodo e político não se posicionar contra ou a favor de determinado segmento social às vésperas de um ano eleitoral, porém, perigoso, pois o povo tem o direito de exigir.
O poder emana do povo, é o povo quem vota, e é o povo quem paga para ver realizado um trabalho que, no fim, é o próprio povo quem está executando, sem remuneração e na maioria das vezes às expensas próprias; e ainda se presta a ser maltratado e ter que medir palavras para não melindrar seus ilustres representantes, mandatários, funcionários, quando, abandonado à própria sorte, precisa implorar até para que o mínimo e óbvio, como a observação à hierarquia das leis, seja cumprido.
Ser tratado como bolinha de pingue-pongue, indo de um a outro, perder dias de trabalho descontados gastar solas de sapatos, pegar várias conduções, alimentar-se mal, e ver projetos importantíssimos para seu trabalho de formiguinha serem engavetados ou então demagogicamente discutidos para defesa de interesses escusos de leões que, sub-repticiamente, não querem abrir mão das benesses irregularmente asseguradas é, no mínimo, uma lição de cidadania.
A parte vantajosa desse exercício é justamente a mobilização popular e o aparecimento de novas lideranças, porque essas pessoas que hoje sofrem a falta de reconhecimento e valorização de seu trabalho voluntário, com certeza na hora de votar se lembrarão do que não foi votado e de quem não votou, e não se venderão por qualquer dentadura ou consulta relâmpago em um consultório particular, porque elas saberão que o direito e o compromisso é da maioria, com a maioria e para a maioria.
Também aprenderão que a Câmara é a Casa do Povo, e que o legislador está lá a convite; portanto, se alguém tem que limpar os pés e moderar a língua é esse hóspede tratado a pão-de-ló que, embora instalado muito confortavelmente, pode ser convidado a se retirar, ao fim do mandato ou a qualquer momento, se faltar com suas obrigações. E que melindrada deve ficar a população por ter que pedir licença para entrar na sua própria casa.
- CLÁUDIA PROCHET é advogada em Londrina





