Melhorar-nos como cidadãos

Walmor Macarini
Não teremos governantes melhores se o conjunto da sociedade também não se melhorar. Eles são egressos do meio social e refletem o idêntico espírito público da própria sociedade. Quanto a nós, temos comparecido às urnas porque é obrigatório, e depois do voto ficamos atentos à apuração, mas apenas para saber se ganhamos nessa aposta. Aí encerramos nossa participação no processo. E depois justificamos nossos hábitos impatrióticos nos impatriotismos governamentais.
Já dissemos isto muitas vezes, e nunca é demais repetir, que a conduta dos cidadãos gerará governantes de conduta idêntica. A sociedade fornecerá bons governantes se ela tiver bons cidadãos em seu meio. Porque carregamos em nós muitos dos valores negativos dos políticos. Inútil pensar que melhoraremos nossos governantes se não nos melhorarmos como sociedade, porque eles emergem do nosso convívio.
O que temos feito no nosso dia-a-dia é nos digladiar, em acirrada concorrência, quando deveríamos ser mais patriotas (no sentido de pátria-mãe, não de nacionalismo egoísta e doentio), ser mais solidários e menos competitivos. Ensinamos nossos filhos que o mundo lá fora é perverso, é de luta, de competição, que vence o melhor, e aí eles entendem que vence o mais esperto, não o competente e o consciente. E a escola não passa outra coisa senão isto, porque os professores são também egressos do meio, e a essa altura já não sabemos mais que foi que começou... A Igreja (outro pilar em que a sociedade tem se apoiado), esta implodiu e fragmentou-se, porque estribada em ensinamentos equivocados, que só tem confundido e dispersado os fiéis. Desse meio emergem os políticos.
Temos buscado refúgio nos valores da família, da escola, da Igreja, e agora adicionamos mais um: o do governo. Mas não pensamos que família, escola, Igreja, governo, somos nós mesmos. Não melhoraremos a família se não nos melhorarmos individualmente. Não melhoraremos a escola se não nos melhorarmos como cidadãos, porque é deste meio que saem os educadores. Não melhoraremos a Igreja porque temos imaginado que ela é que irá nos melhorar. Não melhoraremos o governo se não produzirmos bons governantes. Engano pensar que a família produzirá boas pessoas, porque serão as boas pessoas que alicerçarão uma família. Engano pensar que a escola preparará os homens do amanhã, porque os homens de hoje é que produzirão uma boa escola, eis que ela não é agente, mas resultante. Engano pensar que a Igreja santificará os homens, porque elas são lá dentro o que os homens são aqui fora. Engano pensar que teremos bons governantes se não formos uma sociedade capaz de produzi-los.
Se cada cidadão pautar-se por atitudes corretas – em sua casa, em seu escritório, em sua clínica, em sua loja, em sua fábrica, enfim perante sua própria consciência – aí a pátria estará salva. Aí seremos boa família, boa escola, boa Igreja, bom governo. Seremos uma boa sociedade!
Isto é possível? Sim, isto é possível! Mas temos que começar neste instante, começar por nós mesmos. Não há outro caminho. Se não cremos nesta fórmula, então o que queremos? Que o outro comece primeiro? Se não conseguimos nos domar a nós mesmos, como domar os outros?! Se começamos, quem sabe induzimos nosso filho, e aí já serão dois. Quem sabe nosso vizinho se juntará a nós, e aí seremos três, que poderão dar o exemplo a mais três, e aí serão seis, que serão doze, que serão 24, e nessa ordem se abarcará a humanidade inteira. Cada grande caminhada se inicia com o primeiro passo.
Nossas pequenas desonestidades diárias começam com as mentirinhas (‘‘fala que não estou’’), os atrasos, as negligências (‘‘estive viajando’’, ‘‘ando num corre-corre danado’’), os descuidos, as desatenções, as dissimulações (‘‘passa lá em casa’’, ‘‘precisamos conversar mais’’ – e nem o endereço e telefone fornecemos), o fazer de conta que nos esquecemos (sobretudo de compromissos assumidos), o deixar para depois o pagamento daquela promessa, daquele débito (quem sabe o credor esquece...), o negar uma coisa que podemos fazer e não nos custará nada, o ‘‘amanhã eu vejo’’, quando sabemos que não iremos ver. Afora aquelas nossas eventuais grandes desonestidades! Porque temos sido desonestos por conveniência, e – muito mais grave – tantas vezes honestos por idêntica conveniência...
Essa corrente vai se cristalizando em nosso inconsciente, incorpora-se ao inconsciente coletivo, e aí as coisas ficam mais difíceis de controlar.
Os problemas e as soluções são de responsabilidade de cada um. O Brasil só melhorará se ficarem melhores os brasileiros. E os brasileiros não são os outros... Os brasileiros somos nós!
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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