A tecnologia já encontrou fórmulas de aproveitamento total do lixo urbano, pela via da industrialização, mas não se sabe por qual razão essa prática é pouco adotada no Brasil. Esse processo, que não exige grande investimento, possibilita converter o lixo orgânico em adubo; separa, compacta e empacota automaticamente os metais; seleciona vidros, plásticos, papéis, madeiras, e a tudo dá uma destinação útil e higiênica. O adubo resulta tão limpo que pode ser juntado com as mãos e cheirado, sem exalar mau cheiro. Vale citar, en passant, que os gramados do árido solo de Brasília germinaram pelo adubo resultante de sua usina de lixo. Técnicos franceses do setor, certa ocasião vieram ao Brasil e declaram que, ao jogar lixo doméstico em monturos e aterros, o País jogava dinheiro fora. Enquanto isso, reportagem de domingo deste jornal mostra que, em Londrina, toneladas de lixo são desperdiçadas. Certo é que 30 organizações de catadores carentes ocupam e beneficiam 500 pessoas, que coletam o lixo reciclável e tiram dessa atividade seu sustento, mas isto não invalida a idéia da industrialização, de modo a abandonar o recurso medieval do amontoamento do lixo e do triste espetáculo de pessoas já idosas, e crianças, puxando carrinhos ruas acima, e freando ruas abaixo com o próprio corpo. A usinagem empregaria essa mão-de-obra. E, enquanto o beneficiamento do lixo não chega, é oportuno sugerir que o Banco do Povo (instituição do poder público municipal) financie um sistema motorizado para beneficiar essa gente. Eventualmente, um triciclo com carreta. É louvável que as tais organizações não-governamentais reúnam esses catadores em cooperativas, como está acontecendo em Londrina e com bons resultados, mas o trabalho é ainda primitivo, pesado e arriscado, pelo risco de acidentes no trânsito, em meio aos veículos. É que esses carrinheiros muitas vezes andam na contra-mão para encurtar o caminho e aproveitar descidas. Mostra a reportagem que não há ainda conscientização das famílias (aí compreendendo-se as serviçais domésticas) para a separação dos vários tipos de lixo. Muitas residências e condomínios adotam o sistema, mas isto não é regra geral. Há os insensatos que colocam vidros quebrados na mesma sacola do lixo doméstico, oferecendo perigo de ferimentos aos operadores da coleta os particulares e os das empresas contratadas. São muitos os problemas a resolver na questão do lixo doméstico, porque até agora pensa-se apenas no benefício da coleta individual, no associativismo medidas louváveis de quem se dedica a esse tipo de organização de trabalho mas a operação de coleta e transporte é ainda muito rudimentar. No geral, os problemas são a baixa adoção da separação, o transporte individual pesado quando feito por pessoas velhas e por adolescentes; pilhas, vidros e ferros pontiagudos misturados ao lixo comum; os riscos à saúde e a acidentes; a exposição à chuva e ao sol escaldante; o baixo emprego da industrialização (existente em muitos países e inclusive, timidamente, no Brasil) e que é capaz de reaproveitar 100% dos detritos. Do lixo, se conveniente tratado, nada se perde.

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