O papa Leão XIV completou há pouco seis meses de pontificado. Malgrado os apreensivos e apressados, ele rugiu nos últimos meses e vincou a sua personalidade no contexto da substituição de um gigante, como foi o papa Francisco. Não era um empreendimento fácil sentar na cadeira do papa argentino, que em doze anos revolucionou o papado moderno. Porém, Leão soube, com muita sabedoria, dar continuidade aos grandes temas do anterior e incutir a sua personalidade na dose e no tempo corretos.

O fio condutor que entrelaça os posicionamentos atuais está na apresentação de uma Igreja aberta em processo de renovação, não dependente dos poderosos, que não confunde missão com marketing religioso; uma Igreja que serve a todos, começando pelos pobres e que busca incansavelmente a paz. Aliás, esse termo foi dos mais usados desde que apareceu na sacada da Basílica S. Pedro pela primeira vez! “Uma paz desarmada e uma paz desarmante, humilde e perseverante”.

Aos cardeais que compõem a Cúria Romana e que o ajudam no governo da Santa Sé, ele foi perentório: “é preciso desaparecer para que Cristo apareça”! Nada de apego ao poder ou de usá-lo de forma “mundana”. Neste quesito, seu pensamento coincidiu totalmente com o de Francisco, que em várias ocasiões assim se dirigiu aos cardeais. Leão viveu no Peru vários anos; entende a Igreja numa perspectiva latino-americana e sabe que a fidelidade ao Evangelho é o único critério para a sua existência.

Nas catequeses semanais, ele vem apresentando o seu pensamento e dando coordenadas para os crentes católicos. “Por que Judas recebe o pedaço de pão de Jesus na última ceia?” Responde Leão: “Jesus leva adiante e a fundo o seu amor (...) porque sabe que o verdadeiro perdão não espera pelo arrependimento, mas oferece-se primeiro, como um dom gratuito, mesmo antes de ser acolhido”. Nenhuma novidade teológica! Contudo, ao assim se expressar, ele traça uma linha evangélica que rechaça interpretações obtusas e amplamente usadas no meio cristão. E a missão da Igreja é exatamente testemunhar esse amor. A fé, lembra o atual papa, cresce proporcionalmente ao interesse compassivo que manifestamos pelos outros, pelo seu sofrimento.

A preocupação com a elevação da escalada bélica mundial é hoje uma das maiores preocupações de Leão XIV: “Não devemos nos acostumar com a guerra! De fato, devemos rejeitar como uma tentação o fascínio de armamentos poderosos e sofisticados”. E noutra ocasião ele fala com muita ênfase: “Como crer, depois de séculos de história, que as ações bélicas trazem a paz e não se voltam contra quem as praticaram? (...) Como continuar traindo o desejo de paz dos povos com falsa propaganda de rearmamento, na vã ilusão de que a supremacia resolve os problemas em vez de alimentar o ódio e a vingança”? Em outubro passado, ele fez referência a um versículo do Evangelho com assertividade: “Guarda a tua espada, é uma palavra dirigida aos poderosos do mundo, àqueles que guiam os destinos dos povos: tenham a audácia de desarmar”!

Mas Leão está rugindo com mais intensidade do que alguns esperavam! Há pouco tempo, lançou a sua primeira Exortação Apostólica Dilexi Te, sobre o amor aos pobres. Escrevia ele com muita propriedade: “não estamos no horizonte da beneficência, mas da Revelação: o contato com quem não tem poder nem grandeza é um modo fundamental de encontro com o Senhor da história”. De fato, a pobreza não é no Evangelho e na Igreja uma categoria sociológica, mas teológica. Tanto Leão quanto Francisco colocam o mundo e particularmente a Igreja de fronte a uma realidade nua e crua: os pobres nos interpelam e são a carne de Cristo. Não dá para professar a fé cristã olvidando os pobres, ou, parafraseando a parábola do Bom Samaritano, “passar ao largo”! O aumento descomunal da pobreza no mundo, as discriminações sociais e a perseguição violenta que migrantes e estrangeiros sofrem nos mais diversos países, assim como a proliferação de guerras e conflitos, tornam urgente este apelo papal. O amor aos pobres não é opcional! Representa o critério último para um culto verdadeiro. Leão XIV nos conclama a todos a sermos sensíveis com “tantos povos despossuídos, roubados e saqueados, vítimas de sistemas políticos opressivos, de uma economia que os força à pobreza, da guerra que mata seus sonhos e suas vidas”. Parecem termos de Francisco! Mas são de Leão!

Pe. Manuel Joaquim R. dos Santos

Arquidiocese de Londrina

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