Curitiba - O engenheiro florestal e coordenador de conservação da biodiversidade da Fundação O Boticário de Proteção à Natureza, André Ferretti, está em Copenhague, na Dinamarca, com o objetivo de acompanhar as negociações da 15 Conferência das Partes da Convenção do Clima (COP 15). O principal objetivo é contribuir e influenciar a delegação brasileira nas decisões para a redução da emissão de gases poluentes.

Um dos principais impasses do encontro é a possível ajuda externa para que países pobres e em desenvolvimento possam reduzir suas emissões. Outra polêmica diz respeito à cobrança por metas de corte mais ousadas por parte da nações ricas. Nesta entrevista, Ferreti avalia a importância do evento e a possibilidade de consensos que contribuam com a redução dos efeitos do aquecimento global.

®MDNM¯ Qual é o principal desafio dos países que participam desta edição da COP?
®MDNM¯A principal regra da Organização das Nações Unidas (ONU) é que todas as decisões da convenção devem ser aceitas por consenso. São 193 países votando. Se um deles for contra, não é aprovado. Esse é um dos principais motivos da morosidade nos avanços. Imagine aprovar uma coisa por unanimidade entre quase duas centenas de países.

E qual é a função dos participantes do evento?
Nosso maior foco são os 600 negociadores brasileiros credenciados pelo Governo Federal, entre representantes dos ministérios e ongs. O nosso papel é cobrar destes representantes.

Você é a favor das propostas que o Brasil está apresentando no evento?
Algumas coisas sim, outras não. O que converge com a posição atual do governo é que o Brasil deve apresentar metas de redução, mesmo não sendo obrigado a isso conforme a convenção do clima nos moldes atuais. Só 38 países já desenvolvidos têm metas obrigatórias. Os outros países não têm as metas, mas o Brasil diz que vai se manisfestar para que as metas voluntárias sejam criadas. O que gostaríamos é que essas metas fossem mais ousadas.

O Brasil também é um grande poluente, não é?
Os principais emissores atuais não têm metas de redução de emissão, pois são países em desenvolvimento, como China, Brasil, Índia e México. Essas questões começaram a ser discutidas na década de 1980. Em 1990, os países ricos eram responsáveis por 60% das emissões mundiais. Porém, historicamente representavam quase tudo, pois antes disso os países mais pobres emitiam muito pouco. Hoje, os países em desenvolvimento já estão passando os níveis de emissões de gases poluentes em relação aos desenvolvidos.

Então os países desenvolvidos deixaram de ser os vilões do clima?
Os problemas climáticos que enfrentamos hoje são reflexo do que ocorreu da Revolução Industrial até hoje, pois os gases emitidos duram mais de cem anos anos na atmosfera. Na primeira parte do século passado, os países em desenvolvimento não emitiram quase nada. A partir da década de 1950 a população no Brasil aumentou e o País se industrializou. Antes disso, as emissões eram pequenas, mas tudo mudou. Até a metade do século passado grande parte do Paraná era floresta. Hoje, foi quase todo desmatado. O principal motivo da subida brasileira no ranking de emissores de gases poluentes é o desmatamento. Mas os Estados Unidos e a Rússia continuam sendo os grandes poluentes mundiais.

Então o Brasil é um grande poluidor, apesar de contar com uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo.
Isso por conta dos desmatamentos e queimadas. Dessa forma, estamos desperdiçando recursos naturais, queimando nosso patrimônio. Grande parte do que é queimado não é nem utilizado. As pessoas derrubam e colocam fogo para garantir posse. A nossa legislação diz que se você está em uma área e prova que tem a posse, você tem o título dela. E o sinal de que eu estou usando a terra é ter desmatado. Tem gente que desmata para marcar território.

O nosso atual modelo de desenvolvimento está falido?
Se insistirmos nesse modelo nossa civilização está perdida. Mas com ciência, consciência e sensibilidade, percebendo que já existem caminhos para um novo modelo de desenvolvimento, podemos mudar esse cenário. Alguns relatórios têm mostrado que o custo para fazer essa mudança, com a utilização de energias alternativas, não seria tão grande. Seria até menor que o necessário para sair da crise financeira.

Como está o Brasil no quesito investimento em energias alternativas?
Enquanto outras partes do mundo tentam mudar, o Brasil, que reconhecidamente foi um dos países que mais investiram em energias alternativas, parou. E está sujando a matriz energética. Um país como a Alemanha está muito à frente de nós na energia eólica, sendo que aqui temos quase 10 mil quilômetros de litoral. No litoral temos muito vento, muito sol e muito mar, é energia que não acaba mais. Praticamente nada disso é utilizado. Tem muita fonte de energia a ser explorada.

Qual é o clima entre os países durante a COP?
Infelizmente é um clima mais de disputa do que de cooperação. São negociadores pensando no próprio país, e não no planeta. Cada letra que aparece nos tratados os negociadores ficam pensando quem vai ganhar mais. Isso é muito complicado. Se o clima piorar, todos vão perder. Quando fui na primeira COP, voltei deprimido. Me senti mal, pois parecia uma banca de negócios. Era todo mundo querendo se dar bem. Era uma venda de produtos. O pior é ver um país negociando simplesmente pensando como vai aumentar o seu Produto Interno Bruno (PIB). Por outro lado, há países desesperados, como ilhas do Pacífico, que estão vulneráveis, prestes a sumir. Imagine um país desaparecer, o povo perder seu território. Todo mundo que vai pela primeira vez na COP vai com esperança. Mas chegando lá não é bem isso que se vê.

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