O economista Luiz Gonzaga Belluzzo, professor na Unicamp, quando chamado a opinar sobre o impacto político das negociações do Brasil com o Fundo Monetário Internacional, afirmou que ''foi um acordo muito bom, que dá sossego para fazer um debate eleitoral mais tranquilo''. Lembrou ainda que ''esse tipo de medida demora a aparecer no dia-dia das pessoas''. E concluiu: ''Uma coisa é o que ocorre no nível das pessoas que decidem, outra coisa é o que se passa na população em geral''.
Trocando em miúdos: a realidade do Planalto está anos luz distante da rotina do povão. Basta ouvir o comentário de qualquer autoridade sobre a situação do País, quer seja na questão econômica, social, de saúde ou segurança. A retórica oficial, quando comenta a posição do Brasil perante o resto do mundo, dá a sensação que os governantes se referem à Dinamarca, Suécia, Suíça ou mesmo a longínqua Austrália, menos Pindorama.
O presidente do Banco Central, Armínio Fraga, na entrevista coletiva que concedeu para explicar as negociações com o FMI, festejou os resultados obtidos e considerou o acordo ''espetacular e sem custo''. Em bom português, o que se passou é mais ou menos como o cidadão que está atolado em dívidas até o pescoço - ou pouco acima - e resolve sentar na frente do gerente do banco para renegociar. Este, por sua vez, fará toda sorte de exigências para garantir o pagamento do empréstimo, afinal, conhece a vida financeira de seu cliente. Ao final, como salvação, faz um outro empréstimo para cobrir o supercheque estourado, ou seja, o cidadão não pagou o que devia e ainda aumentou sua dívida. Naquele momento a situação do desgraçado se torna ''espetacular e sem custo'', no entanto, a médio e longo prazo ele poderá vir a sofrer novos reveses.
Não há como negar que o acordo chegou em boa hora. Às vésperas das eleições presidenciais, com o candidato oficial, senador José Serra, não empolgando o eleitorado, enquanto Ciro Gomes, o mordaz adversário do governo Fernando Henrique Cardoso, cresce nas pesquisas de intenção de votos e, ao que parece, deve disputar com Lula o segundo turno, os riscos de uma argentinização, em face da pressão dos mercados, ao menos momentaneamente parecem descartados.
Entretanto, o que não disse o presidente do BC é que a concessão do empréstimo deveu-se ao pragmatismo do presidente George W. Bush, que apoiou a negociação a fim de defender os interesses de grandes corporações norte-americanas, além de não causar mais prejuízos ao seu próprio governo, afinal, os EUA terão, em novembro próximo, eleições parlamentares. Alem disso, ele sabe que qualquer deslize na economia verde-amarela fatalmente provocará um efeito dominó em todo o continente; e por conseguinte, com reflexos em todo o mundo.
Meias verdades é querer iludir a tigrada que o País caminha às mil maravilhas. O empréstimo do FMI é sintoma de dificuldades financeiras e certeza que muita coisa terá que ser modificada no próximo governo, seja lá quem for o vencedor. Ninguém nega que o presidente FHC teve uma participação das mais expressivas na vida pública brasileira. Basta citar seu ousado Plano Real, primeiro como ministro e depois presidente da República, que enterrou definitivamente a espiral inflacionária que corroia o poder aquisitivo dos assalariados.
No entanto, a dívida social que fica para o futuro só não vê quem não quer. O desemprego, a crise na qualidade do ensino público, a falta de políticas nas áreas de infra-estrutura e saneamento, a violência desenfreada que atinge índices estatísticos comparáveis a países como a Colômbia ou mesmo em áreas de conflito como o Oriente Médio. A somatória destes fatores transformou o Brasil num dos países mais injustos e desumanos em termos de distribuição de renda e qualidade de vida. Pior: um país sem esperança no amanhã. Até o presidente Bush já percebeu que alguma coisa precisa ser feita com a máxima urgência, afinal, como escreveu o jornalista Clovis Rossi, UTI salva, mas não cura.
RENÉ RUSCHEL é jornalista em Curitiba

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