Meias bolachas
Às vésperas de eleições ou de votações importantes abrem um pacote de bolacha e dão meia bolacha para quem os procura
De repente, aquele cheiro de pizza invadiu o ambiente todo. Não o daquela massa gostosa. Mas um odor rançoso. De banha velha a causar ânsia. Sufocante. Serviço de cozinheiro relaxado que não costuma comer a refeição preparada para os outros. Na cozinha estavam o cozinheiro-mor e seus auxiliares. Nem tão auxiliares assim. Alguns costumam praticar a arte da pizza há dezenas de anos. Talvez por isso o cheiro de banha velha. O mau odor vinha da mais recente culinária engendrada pela cozinheirada da situação. Tudo para barrar a CPI da Corrupção.
Minha preocupação é que os fregueses (e olha que são fregueses há 500 anos!) continuam a engolir esta nojeira e às vezes parecem não mostrar disposição em trocar os cozinheiros. Medo de comer coisa boa? Ou medo de não achar quem sequer faça este troço banhento?
O problema é que andaram falando por aí que não existe outro cozinheiro. Aliás, não é bem isso. Existir até existe. Mas disseram que os interessados em assumir o posto são inexperientes e prometeram mudar o cardápio. Pizza nunca mais. Será possível comer outra coisa?
O receio ocorre não só nas grandes cozinhas. Aquelas lá do Planalto ou do Iguaçu. Também nas pequenas. Mudar o cozinheiro é uma decisão difícil. Sobretudo quando o antigo possui alguns dotes (miúdos quase sempre), mas que por momentos, também muito pequenos, fazem esquecer o cheiro forte da banha rançosa.
Às vésperas de eleições ou de votações importantes abrem um pacote de bolacha (com delicioso cheiro de chocolate ou baunilha) e dão meia bolacha para quem os procura. Isto ocorreu de novo no Congresso para inibir a instalação da CPI da Corrupção. E por distribuírem meia bolachinha, os cozinheiros de sempre acabam garantindo sua continuidade na cozinha.
Mais um exemplo. Estes dias, passando em frente à Associação Comercial de Ponta Grossa, vi de novo o painel de denúncias contra vereadores ditos traidores do povo. A intenção do painel é revelar os maus cozinheiros da Câmara Municipal.
Ótima idéia! Em geral só se faz propaganda escrita favorável aos restaurantes. Nunca vi um aviso do tipo Não entre! Comida ruim! Quando muito um amigo alerta verbalmente Não vá lá. A comida não presta.
No ano passado, bem antes das eleições, um aviso da mesma Associação Comercial já estava lá. Delatava os cozinheiros que haviam preparado uma pizza horrorosa por ocasião do aumento da passagem de ônibus. A surpresa é que boa parte dos maus cozinheiros, denunciados naquela ocasião, foram novamente aprovados pelos comensais. E hoje estão de volta ao painel luminoso, dedados por outro recente desastre culinário.
Entretanto, nem tudo parece perdido. Em quase duas centenas de cidades brasileiras o povo resolveu mudar o chefe da cozinha no ano passado. E muitos mais seriam trocados, não fossem as malditas meias bolachinhas de última hora!
Ao entrarem na cozinha, os novos chefes começaram pela faxina. Muito sebo já foi raspado. E muito mais será limpo ainda. Teve até importante ex-cozinheiro preso. Livres da gordura velha e das fórmulas viciadas, o povo vai poder provar nesses locais um novo cardápio.
Uma vez restabelecida a confiança nessa gente que diz ser possível servir uma outra comida, é bem provável que se consiga trocar o pessoal encarregado das cozinhas maiores a do Iguaçu e a do Planalto. No Rio Grande do Sul, no Acre e Mato Grosso do Sul, assim como em muitas cidades de grande e pequeno porte a população já fez esta opção. Nesses locais uma coisa é certa. Pizza rançosa e malcheirosa muito dificilmente voltará a sair dessas cozinhas enquanto os atuais chefes as dirigirem.
Quem não arrisca trocar o cozinheiro nunca será capaz de experimentar comida melhor. Ficará sempre à espera da meia bolacha que vem de quatro em quatro anos ou vez por outra para tentar tirar o gosto forte de banha velha e rançosa servida todos os dias.
- PADRE ROQUE ZIMMERMANN é deputado federal do PT-PR e professor universitário licenciado em Ponta Grossa





