Medo ou precaução?
Bilionários têm investido em refúgios privados, bunkers subterrâneos de altíssimo padrão e estoques de suprimentos para anos
PUBLICAÇÃO
sábado, 11 de outubro de 2025
Bilionários têm investido em refúgios privados, bunkers subterrâneos de altíssimo padrão e estoques de suprimentos para anos
Abraham Shapiro 
Talvez você não tenha notado. Ou talvez esteja mal informado — não por descuido, mas porque em tempos de excesso de dados, a informação que realmente importa costuma passar despercebida. Entre manchetes barulhentas e redes sociais saturadas de distrações, há um silêncio incômodo rondando as grandes decisões de quem detém o poder real. E, nesse silêncio, algo começa a se revelar: os mais ricos do planeta estão se preparando. E não é para o futuro, mas para o colapso. Isso mesmo.
Bilionários de diversas partes do mundo, principalmente dos setores de tecnologia, energia e finanças, têm investido sistematicamente em refúgios privados, bunkers subterrâneos de altíssimo padrão, estoques de suprimentos para anos e até mesmo em ilhas inteiras, compradas discretamente e transformadas em zonas de sobrevivência autossuficientes. Enquanto para o cidadão comum isso pode parecer teoria da conspiração, para quem tem bilhões, trata-se de estratégia — ou, como muitos deles justificam, de “precaução racional”.
Mas o que está motivando esse comportamento?
Tensões geopolíticas: um tabuleiro instável. O mundo atravessa um dos momentos mais tensos desde a Guerra Fria. A crescente rivalidade entre Estados Unidos e China, combinada com os conflitos diretos e indiretos envolvendo a Rússia e a Otan, tem deixado especialistas em segurança internacional em alerta máximo. O risco não está apenas na intenção, mas na possibilidade concreta de erros de cálculo: um drone abatido no lugar errado, um míssil interpretado como ofensivo, uma cadeia de comandos falha. Em tempos de alta tensão, a linha entre diplomacia e desastre é perigosamente tênue.
Mais do que nunca, fala-se abertamente sobre a ameaça de uma guerra nuclear, algo que parecia confinado aos livros de história e aos filmes distópicos. Agora, novamente, vemos potências realizando testes, investindo em armamentos estratégicos e adotando uma retórica mais agressiva. E isso, para quem observa de fora, pode até parecer distante. Mas para quem tem acesso direto a analistas de risco globais, trata-se de um cenário plausível — e, portanto, digno de preparação.
Pandemias: o “ensaio geral” já aconteceu. Se a geopolítica parece um jogo distante, a pandemia da Covid-19 deixou claro que o colapso pode começar pelo invisível. O coronavírus paralisou economias, esgotou sistemas de saúde e expôs a fragilidade das cadeias de suprimento globais. Faltaram respiradores, vacinas, chips de computador, fertilizantes e até alimentos em algumas regiões.
Para muitos analistas, a Covid-19 não foi o evento principal, mas um ensaio geral. E a próxima pandemia pode ser ainda mais letal, com vírus de transmissão mais rápida, mutações mais agressivas ou que escapem das vacinas atuais. O que se aprendeu com o coronavírus é que o tempo de resposta global é lento — e que, em momentos de crise, cada país tende a proteger seus próprios interesses, o que pode significar bloqueios comerciais, nacionalismo extremo e escassez generalizada.
Cadeias de suprimento e a ilusão da abundância. Vivemos sob uma ilusão confortável: a de que tudo estará disponível, sempre, em qualquer lugar. Queremos frutas fora de época, medicamentos complexos, energia abundante, água potável, transporte rápido e tecnologia de ponta — tudo entregue em tempo real. No entanto, essa cadeia globalizada que sustenta o nosso modo de vida é extremamente vulnerável. Um conflito no Oriente Médio, uma greve portuária na Ásia ou uma seca prolongada no Brasil pode desencadear um efeito dominó global.
Os bilionários sabem disso porque contratam especialistas para modelar cenários de crise. Eles não confiam em sorte ou em promessas institucionais. Confiam em dados, projeções e, principalmente, em sua capacidade de garantir meios de sobrevivência exclusivos caso o sistema como um todo falhe.
A desigualdade da precaução. Diante de tudo isso, a reação é compreensivelmente desigual. Para quem vive com R$ 5 mil por mês — ou menos —, o preparo pode ser comprar um pouco mais de feijão, milho, arroz, manter uma lanterna com pilhas, talvez armazenar algumas bombonas de água. Já para quem tem bilhões, o investimento em segurança passa a ser uma forma de seguro existencial: bunkers com ar filtrado, clínicas médicas privadas com estoques de medicamentos raros, energia solar off-grid, estoques alimentares de longo prazo e até segurança armada.
Isso não significa, necessariamente, que esses indivíduos sabem algo que o resto da população não sabe. Mas certamente acreditam que o risco é real o suficiente para justificar ações concretas — e caras.
Tudo isso poderia ser resumido de modo até certo ponto sarcástico através de uma frase que vem sendo repetida em tom quase filosófico. “Se você tem medo de colapso mas ganha R$ 5 mil/mês, você compra arroz extra. Já, se você tem algumas dezenas de bilhões de dólares, você compra uma ilha.”
Abraham Shapiro, consultor de empresas.
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