Medo e incerteza também para as famílias
Seis pessoas e um destino: rodar 3,5 mil quilômetros até uma capital nordestina. Há seis meses, uma família inteira deixou um bairro da periferia da cidade com medo de que um dos filhos adolescentes fosse executado. Segundo informações do Conselho Tutelar de Londrina, eles já estão integrados à nova comunidade, estudando e trabalhando. Nem parecem mais um grupo de exilados da violência urbana da cidade.
O conjunto de histórias que reúne despedidas e lágrimas, mas que conta também com sorrisos de alívio e pensamentos esperançosos, está em uma caixa preta, perigosa para os personagens quando aberta. Todo cuidado é pouco e por isso os personagens não tem nomes nem endereços.
Há outras famílias exiladas no interior paulista e no Centro-Oeste do País com finais felizes também. Na maioria dos casos porém, a tal caixa preta contém apenas histórias inacabadas, ainda infelizes, sob o angustiante signo da incerteza.
Em algumas histórias, o final não poderia ter sido pior. As lágrimas de um motorista desempregado comprovam isso. J.A.M., 40 anos, perdeu seu primogênito no quarto dia de 2004. J., 16 anos, morreu com 18 tiros nas costas, em frente à uma boate. Pelo menos três menores estão envolvidos. O crime teria sido tramado dentro do Ciaadi por um grupo de internos.
Ele estava com muito medo. Passou quase um mês sem sair de casa, lembra o pai, que ainda não sabe porque o filho morreu e ainda sente medo quando ouve o ruído de uma motocicleta. Eles infernizaram a vida do meu filho. Viviam aqui na frente de casa mas a gente não sabia o que eles poderiam fazer. Meu filho não tinha medo. A gente tinha mais que ele, referindo-se à esposa. Na verdade, a gente ainda tem medo.
A diarista S.A., 38 anos, deve passar o primeiro final de semana aliviada depois do maior drama que enfrentou na vida, que começou quando H., 14 anos, parou de estudar. No bairro periférico em que morava, há uma boca-de-fumo comandada por garotas que ele gostava de freqüentar. Logo estava integrado ao esquema de tráfico. A cabeça é fraca. Chamaram e ele foi, lamenta a mãe.
O consumo desenfreado de crack fez H. se endividar e se arriscar. Quando acumulou uma dívida grande, passou a ser ameaçado com um revólver por outro adolescente. Ele chorava, chorava muito. Me abraçava forte. Estava apavorado. E eu também, conta a mãe. Ele chegou a ter febre. Adoeceu mesmo.
H. então se escondeu em uma casa em um outro bairro por três dias. O suplício acabou esta semana. O adolescente foi encaminhado para uma clínica de recuperação de dependentes químicos. Com a vida do filho garantida, a mãe recuperou a esperança. Quem sabe ele toma jeito, agora. Tenho fé.
Quinze quilômetros dali, na zona leste, B.N.F., 15 anos, filho de empregada doméstica e servente de pedreiro, bem que tentou trabalhar, ganhar a vista honestamente: limpava terrenos baldios e ajudava em alguma pequena obra como servente. Mas um dia abusou sexualmente de um garoto dois anos mais novo. Foi encaminhado ao Conselho Tutelar. A partir daí, foram só desgostos para a família. Chegava drogado e agredia a mãe. Certa vez, o pai encontrou uma grande quantidade de maconha escondido nas coisas do rapaz. Tentou entregá-lo à polícia, mas inexplicavelmente o garoto foi liberado.
A conseqüência deste modo de vida não tardou. Logo, B. estava jurado de morte. O rapaz viveu na rua durante semanas. Tinha medo de voltar para casa, arrombada e invadida pelos seus credores. Ele teria arrecadado R$ 400,00 com a venda de drogas, mas não entregou a quantia.
Há três meses, ele conseguiu vaga em uma clínica de recuperação no sul do Estado, depois de encaminhamento do Conselho Tutelar. Lá, conheceu um ex-interno do Ciaadi e fugiu com ele. Foi resgatado e tem planos de trabalhar na clínica depois de se curar. A gente ainda tem medo dele voltar e continuar sendo ameaçado. Mas sinto muito a falta dele e gostaria de fazer uma visita, ver como ele está, diz a mulher, com amor de mãe. Se ele não aprender desta vez, não aprende mais. (L.F.M.)





