Curitiba - A psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva viu uma amiga ficar paralisada com medo de uma barata. A história fez com que ela refletisse acerca do efeito do medo irracional sobre as pessoas. Em ''Mentes com Medo'', a autora explica com detalhes como se manifestam os transtornos que transformam o medo normal num limitador da vida do paciente. Ela também é autora dos livros como ''Mentes Perigosas'' e ''Mentes Inquietas'', entre outros.

Qual a dificuldade de se diagnosticar transtornos de medo, de ansiedade?
A maior dificuldade encontrada é a falta de conhecimento sobre o assunto, tanto por parte de quem sofre tanto pela própria classe médica. Existem vários transtornos de ansiedade: pânico, ansiedade generalizada, fobia social ou timidez patológica etc. Cada um deles apresenta características diferentes tanto em frequência quanto em intensidade. Numa crise de ansiedade o paciente sente vários desconfortos: taquicardia, sudorese intensa, enjoos. O sofrimento é muito grande. Muitas pessoas têm a nítida sensação de que vão infartar, enlouquecer ou até morrer numa crise de pânico. Isso faz com que os pacientes recorram a vários especialistas (cardiologista, clínico geral etc.) ou prontos-socorros antes de chegarem ao psiquiatra ou psicólogo.

Lá eles recebem o diagnóstico do ''nada'': ''Você está bem, é só um estresse. Descanse ou tire umas férias, que tudo volta ao normal.'' Não existe nada físico realmente, mas o sofrimento é real e não é passageiro. Seria muito importante que os profissionais da área de saúde pudessem encaminhar esses pacientes a especialistas. Reconheço que em muitos casos o médico de fato orienta o paciente, mas este, ou até mesmo a família, se recusa a buscar ajuda de um psiquiatra. Essa via crucis pode levar anos, até que ele receba o diagnóstico correto e inicie o tratamento adequado.

Existe um preconceito em relação ao uso de medicamentos ansiolíticos e para depressão? O tratamento de doenças como a Síndrome de Pânico sempre exige o uso de medicamentos?
Em pleno século XXI ainda existe muito preconceito em relação à medicação como também à própria procura a especialistas da área de saúde mental. Embora, atualmente, a população já esteja muito mais aberta a isso. Até um tempo atrás pensava-se que psiquiatria era uma especialidade médica que cuidava apenas de ''loucos''. Temos que entender que existe uma parcela de ''loucos'' sim; são os chamados esquizofrênicos ou psicóticos.

Porém, a maioria dos transtornos psiquiátricos não tem nada a ver com ''loucura'' em si. A pessoa deve sempre procurar ajuda de especialistas se o desconforto emocional estiver trazendo prejuízos em setores importantes da vida: social, afetivo, acadêmico, familiar ou profissional.

Quanto ao transtorno do pânico, existem pessoas que se adaptam muito bem à medicação e superam suas dificuldades e limitações após algum tempo de tratamento. Outras necessitam de medicação e psicoterapia (com psicólogo) concomitante para que apresentem resultados satisfatórios e mudem sua forma de agir e pensar. Apenas uma pequena parcela não se adapta à medicação, nesse caso a psicoterapia e outras técnicas coadjuvantes são muito importantes.

O problema é que muitos, além de não saberem que sofrem de um transtorno que tem cura ou superação, nem ao menos pensam nessa possibilidade. Sofrem calados por anos a fio. Quando chegam ao consultório já passaram por dificuldades imensas.

Qual a diferença entre medo normal e o medo patológico? Como a pessoa pode saber que ela precisa de ajuda especializada?
O medo e a ansiedade são normais, saudáveis e inerentes ao ser humano, até mesmo como preservação da espécie. Sem essas emoções atravessaríamos a rua sem olhar para os dois lados, sob o risco de sermos atropelados; ou até mesmo ficaríamos parados no meio de um tiroteio. O medo é inato e está incrustado no nosso DNA e é importante numa situação de luta ou fuga. É uma reação de sobrevivência.

O problema passa a existir quando esse medo toma proporções muito maiores do que a situação exige. Esse é o nosso sinal de alerta de que estamos adoecendo. Uma situação de medo normal sempre traz a ansiedade acompanhada (são inseparáveis), mas tal ansiedade é acionada em ''doses'' coerentes com o evento.

A pessoa deve procurar ajuda quando o medo passa a trazer prejuízos em vários segmentos de sua vida. Estes incluem o acadêmico, profissional, social, afetivo.

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