Médicos cubanos: entre falar e fazer
PUBLICAÇÃO
sábado, 31 de agosto de 2013
Marcos Antônio Striquer Soares 
A vinda de médicos cubanos nos convida a uma reflexão sobre direitos humanos no Brasil. Não será um contrato de trabalho com o médico, mas algo como um contrato de prestação de serviços do Estado cubano para o Brasil, o que implica que paguemos a Cuba um valor determinado por profissional deslocado para a prestação do serviço. O valor, contudo, será pago ao governo de Cuba, que repassará ao médico (o valor que o Estado entender adequado) quando ele retornar a seu país, caso volte. Caso ele não volte, não receberá. Isso evita que ele fuja, procurando asilo político em outro país e garante a Cuba bons rendimentos para seus cofres.
Quanto aos direitos humanos no Brasil, temos trilhado um caminho de construção de uma sociedade mais humana. A distribuição de renda tem sido mais justa, ainda resistimos aos ataques de produtos chineses (como foi o caso da indústria de tecido), garantindo bons direitos aos nossos trabalhadores contra a total ausência de direitos do chinês, temos conseguido fixar o trabalhador nordestino perto de suas famílias, sem precisarmos de uma diáspora doméstica. Vivemos num país solidário que reivindica dignidade.
A vinda de médicos cubanos desperta para uma reflexão sobre os direitos humanos do qual falamos e aquele exigido como nossa conduta. Imagine se uma empresa produtora de açúcar fizesse um contrato com a Bahia, na década de 70, para receber cortadores de cana daquele Estado (controlado por coronéis). O desenvolvimento do Nordeste hoje já é bom e ele tem conseguido fixar os seus trabalhadores perto de suas famílias, mas aquele período permite a nossa ficção. Caberia à empresa dar as condições de trabalho ao trabalhador e pagar à Bahia o valor que pagaria ao trabalhador do Sul. A Bahia ficaria com uma parte (a maior parte) do dinheiro e entregaria o restante para o trabalhador. O dinheiro retido seria utilizado para a população conforme afirmação da autoridade de plantão.
Essa ficção não se assemelha a trabalho escravo? Essa história geraria repulsa ao brasileiro médio de 2013 ou não? A mim não convence! O que está em jogo não é só o que ele ganha ou deixar de ganhar ou a condição do trabalho que ele vai desempenhar. Está em jogo, além de outras questões, o controle de um grupo sobre o homem. Será que o Brasil estará obrigado a negar asilo político ao médico que o solicitar ou estará obrigado a detê-lo e enviá-lo de volta? Ou estaremos obrigados a matar o médico cubano em fuga, pronto para fugir do contratante em um pequeno barco na beira do Rio Paraguai (ficção próxima da realidade)? É possível aceitar a servidão? Alguns coronéis do Nordeste acreditavam fazer o bem para a população e os traficantes de droga dos morros geralmente prestam assistência às famílias sob sua jurisdição. Mas até que ponto é possível aceitar a servidão? É claro que a história de Cuba merece respeito, mas a do homem do século 21 também! O século 20 acabou e não é possível ser conivente com a servidão.
O Brasil tem erguido um caminho de solidariedade, sem volta (a não ser que a economia quebre totalmente antes de conseguirmos uma boa infraestrutura). O Brasil tem dado bons passos na construção de um ser humano melhor, contrariando a orientação de vários de nossos concorrentes no mercado internacional. Falta-nos construir uma estrutura para obtenção e manutenção do desenvolvimento (o que envolve educação e novas tecnologias, sem o que crescimento ou desenvolvimento será falso). Esse contrato com Cuba não segue essa orientação. Ele permite a dominação do homem, ele não leva à autonomia e à dignidade, ou não? Ou será que uma boa ditadura é melhor que uma democracia? Ou será que a ditadura é boa desde que eu seja o ditador? Será que teremos de voltar a publicar receitas de bolo nas páginas de política?


