Quase tudo o que tem a ver com desempenho dos governos funciona precariamente no Brasil. Porque os governantes, na maioria, têm mais vocação para o carreirismo político do que para o gerenciamento das coisas, e, pela baixa formação de cidadania, agem com descaso perante as obrigações com o povo. O desprezo para a causa da saúde pública é a mais gritante das negligências, e a tal ponto chegou a situação que desencanta totalmente a classe médica.
Publicação neste Jornal do médico Geraldo Guedes, coordenador da Comissão Nacional Pró-SUS (o Sistema Único de Saúde), mostra aquilo que no geral já se conhece: médicos insatisfeitos e propensos a abandonar esse sistema. Pela razão de que recebem baixa remuneração e têm a obrigação de acumular atividades, com jornadas exaustivas. Será possível - como ele indaga - a manutenção do SUS sem médicos?
A resposta é óbvia, mas parece que ao Governo basta uma sigla e bons discursos para os milagres da saúde acontecerem. O atendimento da saúde pública vai mal, mas no entender do presidente da República tudo está uma maravilha. A comunidade médica está agora reagindo mais intensamente, e na última semana deste mês vai levantar sua voz nos locais de trabalho, nas ruas e praças e promover debates públicos. Isto ocorrerá em todo o Brasil e visa a sensibilizar a população, e por extensão o Governo, para que seja atendida a reivindicação de mais verba para o Sistema Único de Saúde, aí compreendida também a melhoria dos ganhos dos médicos. O SUS completa 20 anos e é um bom projeto, mas ainda padece do mal crônico da debilidade. Porque sobreviveu mas não ganhou corpulência. Os médicos são mal pagos mas demonstram também preocupação com o precário atendimento aos pacientes, decorrente da fragilidade do sistema. ''É revoltante - declara aquele profissional - encaminhar um doente para assistência especializada sabendo que a grande maioria jamais vai ter acesso à consulta ou ao procedimento (no mínimo) de média complexidade''.
Ele adiciona, com razão, que não se pode aceitar que assistência médica de qualidade seja privilégio de uma minoria que tem acesso ao sistema de saúde complementar (os Planos de Saúde). Tem-se escrito que os médicos e atendentes se desdobram e fazem o que podem, mas é realmente vergonhosa a remuneração que recebem do SUS. E se os médicos sofrem, imagine-se os pacientes. Estes esperam meses por uma cirurgia e muitos morrem antes do atendimento.
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