Nunca houve um tempo na vida do médico Júpiter Villoz Silveira, 57 anos, em que ele não estivesse cercado de crianças. Além dos 7 filhos, há mais de 20 anos ele e a esposa Tania cuidam de crianças na Casa do Caminho, entidade fundada por eles para recolher menores das rua. Mesmo se definindo como um otimista, Silveira não se ilude com relação à realidade das crianças de hoje. ''Há um contraste enorme entre o que a gente vê e o que os órgãos oficiais dizem'', afirma.
O médico critica: ''Nosso sistema de ensino está produzindo analfabetos na 5 série. O desemprego só aumenta e a gente vive um momento de ufanismo político muito perigoso. Existe uma população enorme que não entra nas estatísticas, que simplesmente não existe para o Governo. Gente abaixo da linha de pobreza. E muita dessa gente é gente pequena, sabe?''.
O alerta não se baseia só num olhar atento para a realidade. Júpiter Silveira recorre a números. ''Há 17 anos, quando nasceu a Casa do Caminho, fizemos uma avaliação preliminar de que existiam 20 crianças morando nas ruas de Londrina. Estávamos errados, eram 90 crianças. Um mês depois de abrir a Casa tínhamos 220 crianças na entidade'', recorda.
Para ele, a situação só piorou. ''Naquela época a gente não tinha gangues de rua como hoje e nem tráfico envolvendo crianças. A única droga que elas conheciam era cola de sapateiro. Hoje, além de consumir crack, as crianças são usadas e descartadas pelos traficantes como se fossem coisas.''
Quando o assunto é criança, o médico não pouca críticas. ''Londrina continua sem um projeto inteligente, maduro, do tamanho da problemática que se chama criança e adolescente desamparado. Esses pequenos projetos que estão aí são uma gota d' água num oceano'', compara. Ele cobra: ''Existem verbas internacionais e federais disponíveis mas precisamos de liderança e bons projetos. Falta iniciativa. A hora de buscar parcerias é agora. Não adianta deixar para o fim do ano.''
Silveira cobra participação da iniciativa privada. ''As parcerias permitem que as empresas se tornem socialmente responsáveis. O terceiro setor tem que crescer por aí. Temos leis que permitem captação de recursos via imposto de renda mas é preciso acordar os empresários'', afirma.
Um projeto social para crianças, segundo Silveira, tem que ser abrangente: ''A grande necessidade das crianças é família. Elas vão prá rua não por falta de comida mas falta de amor, afeto e compreensão. Qualquer projeto que queira ajudar as crianças tem que atender os pais dessa criança também''. Ele ensina, de forma simples, o que aprendeu ao longo dos anos. ''Eu descobri que nada substitui a mãe, por mais problemática que ela seja. O vínculo da criança com a mãe é o grande segredo que a sociedade precisa descobrir. Através desse vínculo a criança pode superar qualquer dificuldade. Quer ajudar uma criança de rua? Ajude a mãe dela''. (P.F.)

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